Quando eu fui à Bombonera no meio da ‘Doce’



Foto tirada no meio da 12 em Boca x River (Thiago Salata)

O Palmeiras voltará a jogar na Bombonera após 17 anos. Toda vez que uma equipe brasileira vai ao mítico estádio do Boca Juniors, não por acaso, a casa do clube argentino aparece nas manchetes, é tema das entrevistas dos envolvidos. O veterano Edu Dracena revelou que jogará pela primeira vez no campo do clube mais popular da Argentina. Não é um estádio comum. Quase todos os palmeirenses vão estrear no campo contra “La 12” (“La Doce”), a organizada xeneize, e basta olhar as imagens registradas pelo fotógrafo do Palmeiras, César Greco, na véspera do jogo, para ver como os atletas olham as ingrimes arquibancadas com semblante de respeito. Vazias, impressionam. Cheias, são um espetáculo à parte. Não à toa o estádio é ponto turístico para quem visita Buenos Aires.

Há 15 anos, quando este jornalista, então estagiário, conseguiu as primeiras férias em início de carreira, fui à Argentina com três amigos, em longas 36 horas de ônibus, numa viagem que tinha como objetivo conhecer as arquibancadas dos estádios argentinos. Foram dez dias para ver jogos nos campos do Racing, Huracán, San Lorenzo, Vélez e, claro, La Bombonera. Na casa do Boca, um jogo de quartas de final da Libertadores e um Superclássico contra o River Plate estavam no roteiro. E dentro de “La 12”.

Tínhamos de ir a Bombonera. Mas teria de ser dentro da 12. Pensando sobre a questão, racionalmente, anos depois, há a certeza de que aqueles moleques de 20 anos fizeram uma loucura. A ingenuidade nos fez pensar que seria possível subir nas “para-avalanchas” do estádio, grades em que os líderes da organizada usam para ficar acima dos demais e “alentar”. Sobe quem é respeitado. A realidade nos mostrou que respirar e conseguir ver qualquer parte do campo já estaria de ótimo tamanho.

A sensação de subir a longa escadaria até a bandeja do meio, localizada atrás de um dos gols, local de “La 12”, é a de rumar para outro mundo. Escuridão, cheiro de banheiro sujo, torcedores alucinados, a maioria homens, e até mulheres com filhos pequenos no colo é o que se vê num ambiente hostil para quem não o conhece (tenha certeza que todos ali estavam muito à vontade)… Ao chegar na arquibancada, o que não se vê é o campo, com milhares de pessoas se amontoando nos degraus. A orientação dada por amigos argentinos era de não conversar em português. Mudos, “entre nós”, ficamos, como se fosse fácil esconder nossa cara de turista no meio dos barra-bravas. Cantamos as músicas dos “hinchas” que já conhecíamos pela internet. A partida era Boca x Cobreloa (CHI), valendo vaga na semifinal da Copa Libertadores.

Fumaça, fogos de artifício, bandeira que sobe e desce, empurra-empurra, o amigo que some e aparece na multidão… Este que escreve, ingênuo, foi ao estádio com a carteira (com dinheiro e todos documentos, inclusive o visto de entrada no país). Obviamente ela sumiu e jamais saberei como. As máquinas fotográficas não era digitais. Para registrar a fotos, só erguendo a mão e clicando para o “nada”. A surpresa viria na hora de revelar (os mais novos não entenderão). O chão tremia, a Bombonera pulsava com a vitória por 2 a 1 que classificou o Boca à semifinal. Saí achando que tinha sido 2 a 0, não vi, muito menos ouvi, o gol dos chilenos. Era quarta-feira e voltaríamos no domingo para…. Boca x River.

Voltaríamos na 12. Sem a carteira desta vez, é claro. E já ciente do que dava e não dava para fazer. A posição foi mais privilegiada, no meio dos barra-bravas, alguns degraus mais abaixo, em um dos maiores clássicos do mundo. Na entrada em campo do time casa, você mal vê a entrada em campo. Apenas sente a festa aumentar, o som subir, com fumaça e papéis voando. O River Plate abriu 2 a 0, com gols de D’Alessandro e Cavenaghi. Do lado aposto, vimos a festa dos torcedores millonarios, amontoados em duas bandejas do estádio. Schelotto comandou a reação, com dois gols, para o Boca: 2 a 2. Tevez já era uma grande promessa do time da casa. Desta vez, consegui ver todos os gols. No meio daquela arquibancada, você não escolhe pular ou não pular. Você simplesmente pula. Nos gols, “avalanche”. Parados à espera da saída ao fim do jogo, ouvimos uma ordem: “são locais ou visitantes? ajudem!”. A ordem de um torcedor era para ajudar a carregar um bandeirão enrolado. Cumprimos, na hora, em silêncio. A Bombonera não é comum. O ingresso daquele Boca 2×2 River, em 1º de junho de 2003, está guardado como relíquia para alguém que ama futebol.

Aliás, como você conseguiu esse ingresso?, pergunta o leitor. Para o jogo da Libertadores, naquela época, foi possível comprar a preço popular pegando fila na bilheteria dois dias antes do jogo. O do Superclássico foi comprado por antecedência por um amigo argentino (grande Gonzalo!). Voltei outras vezes à Bombonera, não mais na 12 – a experiência deve ser única e ter a ousadia de uma repetição já foi o bastante. Fui também na bandeja acima dos barra-bravas e no setor de visitantes, creio que o melhor lugar para ver a festa e sentir o estádio pulsar. Conseguir um ingresso, hoje, custa caro, principalmente para turistas. Todos os bilhetes são de sócios e agências não oficiais os comercializam. Saiu por cerca de 100 dólares minha última visita, em “setor tranquilo”, ao lado da esposa, em jogo do Argentino, em 2016. Acredito que, tentar “turistar” hoje no meio da 12, só com ótimos contatos.

Anos depois, ao ler o excelente livro “La 12”, de Gustavo Grabia, e conhecer a fundo todas as relações criminosas da torcida xeneize, lembrei da loucura de me enfiar no meio deles aos 20 anos. Assim como há 15 anos, o estádio segue pulsando, a torcida faz uma festa única e os palmeirenses terão um enorme desafio quando subirem ao campo e verem as “escaleras” lotadas de fanáticos. A experiência dos torcedores que irão como visitantes também será marcante, seja qual for o resultado. É um templo do futebol, é ver história à sua frente. Registre-se que só quatro brasileiros venceram o Boca na Bombonera pela Libertadores: Santos (63), Cruzeiro (94), Paysandu (03) e Fluminense (12).

Jogadores do Palmeiras ‘encaram’ o estádio (foto: Cesár Greco)

 

 

 



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