O que o Palmeiras quer da vida?



Dudu, capitão do Palmeiras, teve ano abaixo (foto: Ale Vianna/Eleven)

De principal candidato a desbancar o líder, dependendo de suas próprias forças, a atropelado pelo pior mandante do Brasileirão, alvo de protestos de sua torcida. Assim o Palmeiras viveu dois extremos em apenas dez dias. Nove pontos em três jogos com Valentim, seguidos de um ponto em três jogos com o mesmo treinador interino na sequência. Um jogo de ótima qualidade em 30 de outubro, contra o Cruzeiro, e outro terrível em 8 de novembro, contra o Vitória. Resta agora tentar terminar 2017 com uma vaga direta na Libertadores, nas mãos, e entender que não há terra arrasada para 2018.

“Felipe Melo + 10”, picharam em um muro no Palestra Itália. Ganha, tem raça. Perde, falta raça. Mesma ladainha, tão sem norte quanto o planejamento do futebol palmeirense após o título brasileiro de 2016. Entenderia se fosse “Thiago Santos + 10”. Se a questão é raça, ficaremos com o bom volante campeão. Mas acredito que o problema tenha sido outro num ano em que o Palmeiras falhou de forma retumbante nos principais jogos que disputou. Há quem avalie o ano como “desastroso”, por conta do alto investimento. Para quem, há três anos, relacionava “desastroso” a rebaixamento, vamos concordar que o clube “voltou ao seu tamanho” ao ouvir que desastre é estar em quarto lugar, a cinco jogos do fim.

Como o Palmeiras pensa futebol? É isso que quem comanda o departamento precisa responder. Só ter milhões de reais e uma patrocinadora que “promete” título mundial, como se isso fosse mais um produto à venda, não basta. O Corinthians caminha para seu terceiro título brasileiro na década porque há quase dez anos sabe-se perfeitamente o modelo de jogo que se pratica. Por mais que haja inúmeros problemas administrativos e esteja bem longe de ser exemplo (até atrasando pagamentos), a engrenagem do futebol, ali no CT, funciona desde 2008, com poucos momentos de turbulência no campo.

O Palmeiras se reestrutura de forma elogiável desde 2015. É apenas o terceiro ano de uma nova era de um clube com arrecadação alta e que caminha para zerar dívidas. Ótimo, é o caminho. Dois grandes títulos vieram, mas futebolisticamente há muito a evoluir. O campeão brasileiro de 2016 já sabia que seu técnico, Cuca, não ficaria ao fim do ano. Colocou Róger Machado como prioridade, dormiu no ponto, e ficou com Eduardo Baptista, voltando a Cuca já em maio de 2017. Um Cuca que deixou o clube com conhecidos problemas internos de relacionamento meses antes. Não houve coerência alguma nas escolhas. Técnicos com estilos diferentes, escolhidos com a arrogância de quem acha que ter dinheiro basta para ter um grande time num esporte em constante transformação, em todas as esferas.

Já era notório ao fim de 2016 que o Palmeiras tinha carência de laterais. Ignorou-se a questão na montagem do elenco, que ganhou caros campeões da América (Guerra e Borja), atletas que qualquer clube brasileiro teria contratado se pudesse. O Palmeiras contratou pensando no estilo de jogo que iria praticar? Qual é esse estilo? Em 9 de novembro, não sei responder. Vejo apenas um técnico interino tentando emplacar sua “linha de defesa alta” com menos de um mês de trabalho – é óbvio que panes como as vistas contra Corinthians e Vitória iriam acontecer cedo ou tarde. “Libertadores é obsessão”. Obsessão por que? Faz sentido abrir mão do principal campeonato do Brasil na segunda rodada? Faz sentido encostar a principal contratação do ano e contratar Deyverson por cinco milhões de euros? São questões para Mauricio Galiotte e Alexandre Mattos responderem ao fim de 2017. E os jogadores que renderam abaixo do esperado também precisam se questionar sobre o que fizeram e o que esperam do próximo ano. Caberá ao comando avaliar quem deve ou não continuar, com a devida cobrança.

Após o sonho de uma improvável virada histórica no Brasileirão evaporar, há revoltados torcedores pedindo faxina para 2018. Faxina? Vou escalar a minha seleção do campeonato: Vanderlei, Fagner, Balbuena, Geromel e Arana; Bruno Silva, Arthur, Hernanes e Thiago Neves; Bruno Henrique e Jô. O Palmeiras, bem treinado, não encara esse time? O Corinthians tem mais elenco do que o Alviverde? Se a mentalidade for de “terra arrasada” por um ano sem conquistas, o que não parece que a diretoria fará, mais um erro será cometido. Não há sentido em mais baciadas, nem de dispensas e nem de contratações. O Palmeiras precisa, desde já, saber o que quer fazer em campo no ano que vem. Pensar bem e bancar suas escolhas. E a primeira delas precisa passar por quem sentará no banco de reservas.

O Palmeiras, mesmo sem vencer, foi aplaudido por sua torcida após o jogo contra o Cruzeiro. Jogou futebol. Pode ter certeza que novos aplausos virão se o time produzir como se espera em 2018, mesmo que razões inerentes a um jogo de futebol impeçam os sonhados resultados. Mas para produzir o clube precisa saber o que vai querer em campo no ano que irá começar. Pela terceira temporada seguida, a direção trocou o comando técnico já no primeiro semestre. Aos trancos e barrancos, deu para ser campeão de uma Copa em 2015. Com foco e refazendo a pré-temporada só a partir de abril de 2016, foi campeão brasileiro. Em 2017, não deu… (e olha que, mesmo com todas falhas, havia esperanças de título há só duas rodadas). O que o Palmeiras vai querer da vida em 2018?

 

 

 



MaisRecentes

Um voo de Copa e a frustração de um ‘quase jogador’ peruano



Continue Lendo

WTorre é procurada para repetir ‘modelo Palmeiras’ e diz não



Continue Lendo

Torcida gera receita recorde ao Palmeiras em 2017



Continue Lendo