Como o City garimpa talentos e o papel da análise na busca por reforços



Gabriel Jesus foi comprado pelo City por R$ 121 milhões (foto: AFP)

A existência de departamentos de análise de desempenho nos clubes não é uma novidade (há várias e excelentes fontes para se aprofundar a respeito), mas também é função da imprensa tentar passar ao grande público o máximo de informações possíveis sobre o tema. O futebol é paixão, mas também é negócio, e contratações, por razões óbvias, despertam total interesse dos torcedores. E há pessoas “invisíveis” trabalhando para que diretorias errem menos e acertem mais. Como um clube profissional trabalha, ou deveria trabalhar, na busca por novos atletas? Realizado em São Paulo na última quinta, o II Debate Pense Bola, organizado pela empresa Think Ball, discutiu o tema com profissionais da área palestrando para jornalistas, empresários e outros profissionais do futebol convidados.

Você vai ler todos os dias, ainda mais com dezembro chegando, que “clube X analisa jogador Y” ou “jogador Z foi oferecido a clube W”. Há alguns anos, os grandes clubes brasileiros acordaram diante da evolução do esporte e, mesmo numa batalha ainda existente contra dirigentes estatutários amadores, montaram seus departamentos, que analisam o próprio time, adversários, auxiliam a comissão técnica e buscam informações sobre reforços (são muitas demandas, e nem todos estão estruturados para cumprir todas com excelência). Os grandes europeus ainda estão bem à frente.

O Manchester City não descobriu Gabriel Jesus quando o ex-palmeirense começou a fazer gols no time principal, em 2015, e logo virou manchete em jornais europeus. O garoto era monitorado pelo clube inglês desde seus 16 anos e o longo tempo de observação, na base, no profissional (jogos em casa, jogos fora), deu a certeza de que ali havia de fato uma joia. A oportunidade de negócio veio em 2016, quando Guardiola deu o aval para se gastar cerca de R$ 120 milhões. Não se gastaria tanto no escuro. O City tem 40 profissionais trabalhando com análise de desempenho espalhados pelo mundo. Montam relatórios ano após ano observando desde profissionais até garotos, seja no Brasil ou na Venezuela. O City Football Group administra também o New York City (EUA), Melbourbe City FC (AUS), Yokohama Marinos (JAP), Girona (ESP) e Club Atlético Torque (URU), clube novo que está na elite uruguaia e tem como meta chegar à Libertadores em cinco anos. A busca por talentos atende às necessidades de todos clubes do grupo. Douglas, ex-Vasco, de 19 anos, foi acompanhado desde a Série B, comprado, e está no Girona para amadurecer – pode seguir carreira na Inglaterra ou depois virar negócio. Há sul-americanos pouco conhecidos sendo contratados e testados no Torque, por exemplo. “Acho que nesse aspecto os clubes do Brasil ainda precisam evoluir. Há muitas oportunidades a custo mais baixo na América do Sul”, diz o brasileiro Carlos Santoro, Scout do Manchester City na América Latina. Na visão dele, falta trabalho de análise dos clubes brasileiros nas categorias de base dos países vizinhos.

Cícero de Souza, gerente de futebol do Palmeiras, rebateu que o Verdão venceu o Corinthians nesta semana, na final da Copa do Brasil Sub-17, com um gol do paraguaio Aníbal. É verdade, mas ainda há muito a melhorar no Brasil neste e em outros aspectos. Mas saiba que na Academia, por exemplo, há um quadro em que estão anotados os elencos de todos os clubes da Série B. Analistas e treinadores de base do clube assistem a todos os jogos da Segundona, mapeando jogadores posição por posição na busca por oportunidades no mercado. O volante Thiago Santos, ex-América-MG, e o atacante Róger Guedes, ex-Criciúma, acabaram bem avaliados. Foram contratados.

E como atender às necessidades do clube? No caso do City, o técnico Pep Guardiola reuniu todos os analistas e explicou o que, na visão dele, é um bom lateral-direito, um bom zagueiro, atacante… Não adianta para um clube ter um atacante forte no jogo aéreo se o modelo de jogo prioriza o toque de bola, por exemplo. Há times que precisam de zagueiros que trocam muitos passes, outros não. O departamento de análise de desempenho precisa saber disso, é fundamental que ele trabalhe com os mesmos olhos do treinador. O Corinthians tem o maior departamento do país hoje, o CIFUT (Centro de Inteligência do Futebol do Sport Club Corinthians Paulista). São seis profissionais trabalhando. Não há dúvidas que o fato de o clube trocar pouco de treinador e ter uma identidade de jogo bem definida há quase dez anos facilita o trabalho de prospecção. Imagine, então, como é difícil trabalhar no Brasil, com clubes que da noite para o dia trocam treinadores dos mais diferentes perfis. E com outros sem dirigentes profissionais no comando do futebol.

Mas cada um se vira como pode. O departamento de análise santista reforçou à diretoria que investir em Bruno Henrique valeria a pena. “A gente perdeu o Geuvânio, que defendia e atacava bem, para China no ano passado e já tínhamos estudado o Bruno. Era um atacante no Goiás com muitos passes para finalização e vencia também muitos duelos pelo alto na parte defensiva, pelo seu porte físico (1,87m)”, diz Lucas Matheus, analista de desempenho do Santos. Bruno Henrique hoje é o maior assistente do Brasileirão (11) e ajudou o Peixe a ser o clube que menos gol de escanteio tomou (um – o Coritiba é quem mais tomou, 11 vezes). Não há dúvidas que os mais de R$ 15 milhões investidos no atacante de 26 anos, que estava no Wolsfburg (ALE), valeram a pena.

Mas Bruno Henrique poderia ter sido descoberto muito antes, talvez até na base, fazendo com que desenvolvesse melhor seus fundamentos. Ele não passou por categorias de base. O atacante só teve uma chance em clube de Série A em 2015, no Goiás, quando tinha 25 anos. A avaliação do empresário Marcelo Robalinho é de que um lance de sorte fez o jogador ser notado naquele momento pela equipe goiana. A visão bem apurada de um dirigente “salvou” o hoje santista, que poderia ter sido um talento desperdiçado. Será que ele não seria descoberto muito antes se os grandes clubes tivessem profissionais bem preparados espalhados por todos os estados do Brasil? Não seria hoje um atacante mais completo?

As informações, hoje, estão em diversos lugares e auxiliam os departamentos nos trabalhos. Saiba que até jogos como Football Manager e Fifa, por terem seus bancos de dados bem atualizados, ajudam. Há softwares que os clubes pagam com detalhamento de atletas. Números “crus” não bastam. Talvez um atacante de pouco rendimento num time tenha qualidades para ir bem em outro, que tenha modelo de jogo diferente. Aí entra o olhar de quem está analisando. Há também questões humanas, claro, que devem ter peso relevante. Estamos falando de pessoas. Quando um menino muda de continente, de cidade, há uma série de questões envolvidas que vai além da análise de números do reforço.

Não são os departamentos de análise que contratam jogadores. Apenas abastecem comissões técnicas e diretores de dados. Há uma briga ainda em curso pela profissionalização, e mesmo nos clubes com diretores executivos renomados há interesses, políticos e financeiros, quando o assunto é contratação. Há boas intenções, há más intenções. Negócio. Há paixão, há cultura, há torcida. Não vamos esquecer que o mesmo Santos citado neste post contratou um zagueiro indicado por um garçom.

Algo a evoluir no Brasil talvez seja a análise de treinadores. Seria um avanço se os clubes tivessem perfis detalhados dos principais técnicos para errarem o menos possível na hora de escolher. Para ter aquele comandante que mais se adeque ao seu elenco. Por consequência, passará a contratar melhor. Um treinador pode ter excelentes ideias, mas que não servem para o que o seu time pode apresentar. Quando você vê o Palmeiras ter uma lista com Mano Menezes, Abel Braga e Roger Machado, perfis totalmente diferentes, nota-se que isso foi pouco levado em conta na contratação do treinador para 2018.

Se você chegou até o fim do longo texto, este blogueiro agradece. Obrigado pela audiência neste último post de 2017. Saio para as férias mais importantes de minha vida, com o nascimento da minha primeira filha. Seguirei com pitacos no Twitter. Caso eu não quebre as férias para escrever algo por aqui em dezembro (jornalista gosta de escrever mesmo de férias!), até 2018!

 

 

 



  • Diego Pupato

    Excelente texto Salata, parabéns!!! Poderia complementar citando as excelentes fontes para as pessoas se aprofundarem, que escreveu no começo do artigo!!

MaisRecentes

Corinthians de uma ideia e com alma de vencedor



Continue Lendo

O que o Palmeiras quer da vida?



Continue Lendo

O que é preciso fazer para arrancar aplausos dos palmeirenses



Continue Lendo