Coluna de domingo: “Diego é grande! Nem o melhor, nem o pior camisa 10 do Fla”



Em 2004, eu fechava a primeira página do Jornal da Tarde, em São Paulo, quando o Brasil foi eliminado do Pré-Olímpico do Chile e ficou fora da Olimpíada de Atenas. Cometi, naquela noite, uma das poucas coisas de que me arrependo em mais de 30 anos de carreira jornalística. Era uma foto imensa de Diego e sobre ela, em letras garrafais, uma única palavra: CULPADO! Foi uma manchete escrita no calor do momento, carregada pela emoção de uma derrota – o que o bom jornalismo deveria evitar sempre.

 

 

Só no dia seguinte, ao pegar o jornal na porta de casa é que tomei consciência do que tinha feito. Levei um susto, foi um choque. “Esse moleque não merecia isso, não merecia ter uma mancha assim na carreira”, pensei. Diego era um garoto. Brilhava ao lado de Robinho, era a estrela daquela seleção cheia de grandes promessas comandada pelo técnico Ricardo Gomes.  Pouco antes do jogo decisivo, a dupla de Meninos da Vila protagonizou uma cena que ficou famosa e se tornaria o retrato daquele fracasso: Robinho abaixando o calção de Diego que se preparava para tirar uma foto, brincadeira adolescente impiedosamente flagrada pelas câmeras de um fotógrafo. A ”Crise do Calção”, como o episódio ficou conhecido, passou uma imagem de irresponsabilidade, de falta de seriedade a que acabaria sendo atribuída a eliminação daquela Olimpíada.

Errei duas vezes! Primeiro, Diego nem de longe podia ser apontado como o culpado pela eliminação do Brasil.  Depois, felizmente, aquela manchete desastrada não colocaria na testa do jogador o carimbo da irresponsabilidade.

Por que contar essa história agora?

Na sexta-feira, uma postagem em rede social em que  um sujeito qualquer dizia ser Diego o pior camisa 10 da história do Flamengo levou o nome do jogador ao topo das citações da internet brasileira e mobilizou a torcida rubro-negra em uma verdadeira corrente em defesa do meia, como mostrou uma matéria deste LANCE!  “Impressionante como o próprio torcedor flamenguista gosta de criar confusão quando não tem nada para fazer e implode o time. Diego Ribas, nosso capitão dentro e fora de campo, exemplo de dedicação e profissionalismo”, reagiu um internauta. “Respeitem esse homem que ele já honrou, honra e honrará muito esse manto” disse outro.

São comentários justíssimos.

Diego deu a volta por cima, deixou perdido no passado aquele fatídico episódio de 2004. E o fez não apenas com seu talento, habilidade, visão de jogo com a bola nos pés. O fez pelo homem em que o moleque se transformou: um jogador agregador, líder em boa parte dos times por que passou, respeitado pelos companheiros, treinadores e dirigentes. Diego foi a primeira grande contratação dessa nova era do Flamengo, pode se dizer que compôs o alicerce do time que conquistou o Brasil e a América no ano passado. Capitão, mesmo quando no banco teve papel importante na afirmação do trabalho de Jorge Jesus. E nem se fale da vitória épica contra o River, na final da Libertadores, quando foi decisivo nos dois gols da virada, o que por si só já o colocaria na história.

Reencontrei Diego anos depois, em uma entrevista coletiva no velho estádio Vicente Calderón, quando eu já era editor deste LANCE! e ele jogava então no Atlético de Madrid. Fiz uma pergunta – já nem me lembro qual foi – a que ele respondeu com a clareza e a serenidade de sempre. Não sabia, certamente, que o interlocutor era alguém que um dia o havia crucificado por uma derrota. E talvez isso nada mudasse. Mas, parra mim, vê-lo ali, já consagrado, representou muito. Como diz o velho dito popular, o tempo é o senhor da razão.

 



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