O retrato do futebol brasileiro na pandemia - Blog do Capretz

O retrato do futebol brasileiro na pandemia



A final do Campeonato Carioca foi um fenômeno por inúmeros fatores: a primeira decisão sem público neste nosso novo mundo pandêmico, guerra nos bastidores pelos direitos de transmissão, a indignação de muitos pelo retorno precoce de uma competição oficial e até mesmo pela novela angustiante sobre a permanência ou não do técnico Jorge Jesus.
Repare que citei apenas elementos extra-campo. Nada de bola. Nada de jogo propriamente dito. Quero deixar claro que não desprezo nada que configure a atmosfera de uma partida, até porque tenho a crença, inspirada pelos próprios filósofos portugueses da bola, que quem só foca no futebol pouco sabe do próprio futebol. Mas nesses três jogos sequenciais entre Flamengo x Fluminense o campo de jogo gritou várias coisas para mim.
O que destaco inicialmente é a velocidade – ou melhor, a falta dela, nas ações com e sem a bola. Os cem dias sem jogos oficiais vão deixar hematomas por muitos meses. Um paralelo simples pode ser traçado com o começo regular de uma temporada. Quando, após trinta dias de férias, vemos equipes atingindo o auge técnico, tático, físico e emocional? Demora, não é mesmo?! Imagine então depois de tanto tempo parado…jogar futebol pode ser comparado rudemente a andar de bicicleta: uma vez aprendido jamais esquecido. Porém, comportamento de jogo, sinergia entre jogadores e setores da equipe, movimentos coordenados de ataque, defesa e transições, levam tempo para ser incorporados.
Os atletas do Flamengo evidentemente se conhecem muito bem e tem um histórico juntos. Mas até o corpo obedecer e aplicar o que a mente domina vai um certo tempo. Por isso percebi, mas não me surpreendi com o jogo mais mascado do campeão carioca. Aceito quem analisa que algumas peças não renderam o esperado. Entretanto prefiro sempre levar meu ponto de visto para o coletivo, já que não consigo desprezar a regra básica e soberana de que o futebol é um esporte de onze contra onze.
Sobre o Fluminense dá para destacar a resiliência psicológica e até alguns bons conceitos defensivos apresentados. Porém dentro de um “termômetro do jogo”, que é aquele sentimento que temos assistindo a uma partida, em nenhum momento percebi a equipe de Odair Helmman de fato ameaçando o Flamengo. Falta poder de decisão. Falta panca. Falta a agressividade no terço final que caracteriza os bons times. Em competições maiores e com outros adversários de mais nível esse Fluminense pouca chance tem.
Essa foi uma prévia do que vem pela frente nos próximos meses no futebol brasileiro. Tirar a torcida altera demais o ambiente, mesmo sabendo que a concentração do jogador é naturalmente alta dentro de uma partida com dez ou com cem mil pessoas no estádio. Prevejo as boas equipes cadenciando ao máximo seus jogadores e os times com menos recursos técnicos ameaçando unicamente por uma força que vai emergir muito mais da mente do que dos pés. Essa final foi rica para debate em infinitos temas. Mas não podemos desprezar jamais o que realmente o jogo nos mostrou.



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