Análise – Lucas Mariano e o Draft da NBA



Com José Luiz Galvão, do blog Go-to Guy

English version (Versão em inglês)

Com o Draft da NBA, marcado para o dia 26 de junho, no Barclays Center, se aproximando, sites especializados na cobertura do recrutamento de calouros começam a produzir páginas e matérias sobre os prospectos – os chamados Scouting Reports. Por isso, o blog centralizou todo o material disponível e criar algo parecido sobre Lucas Mariano, ala-pivô do Franca e representante brasileiro no recrutamento de calouros.

Lucas Mariano, à esquerda, em ação no NBB (Allan Conti/Divulgação)

A notícia de que Lucas colocou seu nome no Draft da NBA surgiu no fim de abril. O ala-pivô de 20 anos de idade e 2,05 m de altura apresentou médias de 13 pontos (46,8% FG, 34,7% 3 PT, 78,5% FT) e quatro rebotes em 29,3 minutos por jogo na fase de classificação do NBB, e 11,7 pontos (45,4% FG, 35,3% 3 PT, 73,8% FT) e 3,2 rebotes em 28,8 minutos por exibição nos playoffs.

A favor de Lucas, pesa a experiência no basquete profissional. Enquanto a maioria dos prospectos vem de universidades americanas, o brasileiro já vem com a tarimba de 103 partidas no NBB, tendo estreado na temporada 2009/2010. De lá para cá, são 80 partidas de fase de classificação e 23 de playoffs,  e médias de 10,2 pontos (52% FG, 34,2% 3 PT, 73% FT) e 3,8 rebotes em 22,6 minutos por exibição.

Basta uma simples comparação das médias de Lucas na carreira e na última temporada para se tirar algumas conclusões. A primeira é a de que o ala-pivô vive um momento importante de evolução – os pontos e minutos por jogo estão em crescimento. Mas o que mais chama atenção é seu trabalho específico em um fundamento: os arremessos de três pontos.

Durante suas quatro primeiras campanhas profissionais, Lucas ficou em quadra, no total, por cerca de 1.140 minutos, em todo esse tempo, arremessou apenas cinco bolas de longa distância – todas elas na temporada 2012/2013. Não converteu nenhuma. Agora, no último campeonato, o jogador tentou um arremesso de três a cada 7,7 minutos, e acertou um a cada 22,4 minutos. É claramente um foco do seu desenvolvimento.

No total, nos 41 jogos que disputou na temporada, Lucas teve 35,1% de aproveitamento nas bolas de três. Nada mão para um jogador de garrafão que ainda dá os primeiros passos no fundamento, mas ainda pouco para fazer com que ele tenha destaque na NBA. Durante a fase regular da liga profissional americana, 23 jogadores de garrafão tiveram desempenho melhor nos tiros de longa distância: Jon Leuer  (46,9%), Matt Bonner (42,9%), Spencer Hawes (41,6%), Anthony Tolliver (41,3%), Drew Gooden (41,2%), Ryan Anderson (40,9%), Boris Diaw (40,2%), Roy Hibbert (40%), Dirk Nowitzki (39,8%), Mirza Teletovic (39%),  Josh Harrellson (38,7%), Serge Ibaka (38,3%), Marcus Morris (38,1%), Kevin Love (37,6%), Darrell Arthur (37,5%), Byron Mullens (37,1%), Channing Frye (37%), Glen Davis (36,4%), Al Horford (36,4%), Patrick Patterson (36,4%), Josh McRoberts (36,1%) e Paul Millsap (35,8%).

Claro, aqui há duas ressalvas que precisam ser feitas. A primeira é que muitos destes 23 jogadores são arremessadores de ocasião, que não chegam nem perto de atirar uma bola de 3 por jogo, o que gera uma distorção estatística. Mas também vale lembrar que eles enfrentam defesas muito mais qualificadas e atléticas e que Lucas terá de lidar com isso se realizar o sonho de chegar à NBA.

De qualquer modo, o desenvolvimento de Lucas caminha positivamente neste aspecto. Lucas já se coloca como o quinto melhor arremessador de longa distância do Franca, atrás apenas do armador Antonio (40,6%) e dos alas Jhonatan (41,5%), Léo Meindl (36,7%) e Basden (35,3%). Com 1,52 bolas de três convertidas a cada 36 minutos, também se posiciona atrás do quarteto: Meindl (1,99), Basden (1,91), Jhonatan (1,84) e Antonio (1,74). Ou seja, se destaca como jogador de garrafão no fundamento e dá uma importante opção tática para o técnico Lula Ferreira.

Porém, há algo urgente para que Lucas consiga sonhar com a NBA: rebotes. Na temporada, o ala-pivô coletou 4,77 a cada 36 minutos, e é apenas o sexto melhor jogador do Franca no fundamento! Ficou atrás de Paulão (10,96), Feliz (9,12), Socas (5,94), Jhonatan (5,69) e Meindl (5,58).

Tomando como base jogadores da NBA que têm altura maior ou igual a 2,05m e foram capazes de converter 50 ou mais bolas de três pontos com aproveitamento superior a 35% na última temporada, temos o seguinte:

Jogador 3-pt % ORB% DRB%
Kevin Love 37.6% 8.5% 29.5%
Spencer Hawes 41.6% 5.6% 24.2%
Kevin Durant 39.1% 2.2% 18.6%
Dirk Nowitzki 39.8% 1.8% 20.0%
Channing Frye 37.0% 3.6% 16.6%
Chandler Parsons 37.0% 2.9% 12.8%
Josh McRoberts 36.1% 4.0% 13.8%
Mike Dunleavy 38.0% 2.1% 13.0%
Patrick Patterson 36.4% 8.8% 17.1%
Marvin Williams 35.9% 5.5% 17.9%
Marcus Morris 38.1% 5.2% 14.6%
Ryan Anderson 40.9% 9.5% 11.3%
Steve Novak 42.6% 1.7% 10.8%
Média 38.5% 4.7% 16.9%
Lucas Mariano 35.1% 5.4% 10.3%

Sendo 3 PT% o aproveitamento nos arremessos de três pontos, ORB% a quantidade de rebotes ofensivos disponíveis coletada pelo jogador e DRB% a quantidade de rebotes defensivos disponíveis coletada pelo jogador.

Para se manter em quadra, um ala-pivô com essa característica de jogar aberto precisa pegar rebotes. Quando isso não é possível (como nos casos de Mike Dunleavy, do Chicago Bulls, e Chandler Parsons, do Houston Rockets, por exemplo), o jogador precisa saber defender jogadores de perímetro, setor em que não existe pressão para eficiência em tal fundamento. Steve Novak, do Toronto Raptors, é a prova: ele é o melhor arremessador da tabela acima em aproveitamento, mas teve média de apenas 10 minutos por jogo justamente por ter esta característica unidimensional – e consequentemente por comprometer em outras áreas.

O caso de Lucas Mariano – mal comparando – é similar ao de Novak, já que o brasileiro não irá defender jogadores de perímetro e até hoje nunca provou que pode pegar rebotes defensivos o suficiente quando enfrenta atletas mais pesados.

Isso pode ser ainda mais danoso em uma NBA em que os treinadores estão dando mais espaço para novatos que chegam prontos na defesa em detrimento dos pontuadores. Pense em caras como Paul George e Kawhi Leonard, por exemplo, que foram recrutados por equipes fortes – Indiana Pacers e San Antonio Spurs, respectivamente -, mas mesmo assim tiveram espaço desde o início e ganharam minutos preciosos de desenvolvimento para chegarem aonde estão hoje. Você só desenvolve seu jogo e se adapta à liga se jogar, e você só consegue jogar inicialmente provando que consegue ser útil defensivamente.

Essa é a barreira que separa Lucas da NBA no momento. Seu potencial como jogador de garrafão que pode arremessar de fora, atuar frequentemente no pick-and-pop e, de quebra, espaçar melhor a quadra para sua equipe é algo bem raro entre os atletas no geral, mas pra se tornar especial sob o ponto de vista da liga profissional americana, ele terá de aprender a ser eficiente em outras áreas.

Como outro exemplo, vale ressaltar que o número de roubos de bola de Lucas foi um pouco decepcionante nesta temporada: apenas 0,5 a cada 36 minutos jogados. Uma coisa que pode ser percebida quando se acompanha recrutamentos de calouros é que alguns olheiros consideram que a taxa de roubos do atleta é o melhor indicador de atleticismo que você pode encontrar via estatística. Pode parecer até arbitrário, mas é algo que influencia nas avaliações destes profissionais.

A parte boa, entretanto, é que, sendo recrutado ou não, ele não deverá partir imediatamente para a liga norte-americana, podendo assim evoluir em fundamentos importantes e tapar os buracos do seu jogo. Nesta offseason, ele terá uma oportunidade importante para crescer, já que foi convocado para defender a Seleção Brasileira no Sul-Americano, entre os dias 24 e 28 de julho, na Venezuela.



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