Época



Se ver o campeonato estadual do Rio de Janeiro em pleno andamento enquanto os titulares do Flamengo estavam em férias já passava a impressão de algo fora do lugar, observar os jogos do clube serem tratados como pré-temporada dará a medida do despropósito praticado há anos para agradar os cartórios do futebol brasileiro. Nem é necessário mencionar, por enquanto, as questões comerciais que impedem as transmissões dos jogos do campeão brasileiro e sul-americano pelo torneio da FERJ. A subversão do estadual por intermédio de um tipo de participação que leva em conta apenas os interesses do Flamengo é uma ilustração suficiente.

A decisão de converter o torneio em “pré-época”, nos dizeres de Jorgesus, obviamente está relacionada ao dia em que a temporada de 2019 terminou para o Flamengo e ao respeito a trinta dias de férias dos jogadores. Mas não fosse a exigência do treinador português por mais um mês de preparação, é bastante provável que as cordas se esticassem e o time iniciasse o ano com meia dúzia de treinos, se tanto, como se dá frequentemente com tantos clubes brasileiros. O cartaz de Jesus, que seria o destinatário de críticas e cobranças caso o mesmo acontecesse com o Flamengo, impede qualquer negociação nesse sentido, e agora o que se verá é a transformação do campeonato em treinamentos com uniforme.

Por linhas ligeiramente tortas, é o que faz mais sentido a um clube que atualmente se mede pelo próprio desempenho em competições que têm valor. Opiniões certamente variam, mas não há muitos caminhos para que o Flamengo supere o ano de 2019. Um deles poderia ser o título do Mundial de Clubes, como frisou Jesus, o que logicamente supõe o bi da Copa Libertadores. Não ganhar o Campeonato Brasileiro, porém, deixaria sensações estranhas. Zerar o calendário brasileiro com a tríplice coroa, aí sim, significaria que não sobrou nada para a concorrência – algo que jamais aconteceu, assim como a dobradinha do ano passado. Preferências à parte, nenhum cenário contempla, ou deveria contemplar, o troféu da FERJ. Talvez o Flamengo o conquiste em ritmo de “pré-época”, o que seria até constrangedor.

Enquanto o estadual se desenrola, jogadores do elenco principal do Flamengo aparecerão em partidas utilizadas como ensaios, como os dois jogos imediatamente antes da Super Copa do Brasil, no dia 16 de fevereiro. Mais do que a ausência dos titulares por causa das férias, este é o principal sinal da atualização do status do torneio: para o Flamengo, deixou de ser uma competição. Eis a reflexão que precisa ser feita por mais clubes, e em outros lugares, embora a estrutura de poder do futebol no Brasil insista em ignorar o assunto. O risco de não fazê-la é ver o Flamengo se distanciar ainda mais no aspecto técnico, como fruto de uma pré-temporada mais inteligente e produtiva. Não se pode reclamar de orçamento eternamente.



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