Preço



Nota-se algo como um sentimento de indignação pelo fato de Alexandre Pato não ter resolvido o dilema financeiro que o São Paulo criou ao contratá-lo. Como se fosse atribuição dele aliviar as contas do clube, uma vez que, em campo, sua contribuição é ansiosamente aguardada até agora. Ou melhor, talvez a espera já tenha se encerrado, e a esperança de uma solução se resuma ao fim do relacionamento que o São Paulo iniciou por espontânea vontade. Seria mais ou menos assim: se não joga, que ao menos ajude o clube a se livrar do custo. Absurdo.

O futebol de Pato não corresponde há muito tempo à projeção que se fez. Em 2013, quando chegou a um Corinthians multicampeão com traje de astro internacional, as primeiras impressões de companheiros quando o viram treinar foram de assombro. “Vamos ganhar tudo de novo”, pensaram. Sabe-se, a história foi diferente, e o início da oitava temporada desde então apresenta a perspectiva oposta, embora o pedigree técnico de Pato ainda permaneça intacto e seja objeto de elogios de quem divide os gramados com ele. No aspecto do desempenho, hoje parece completa a conversão de um candidato à realeza do jogo em um atacante fleumático, desaparelhado da emoção necessária à existência do futebol. A sensação é de desperdício.

Daí a entender que recusar uma proposta de um ambiente de futebol que não existe seria uma forma de se redimir é um despropósito. Pato não tem a idade avançada ou experimenta o declínio que leva jogadores outrora valorizados a considerar um convite para atuar num lugar como Dubai. Exatamente por qual motivo ele deveria pensar melhor antes de dizer não, obrigado? Um acréscimo em remuneração? Não olhe agora, mas o contrato que o São Paulo celebrou com ele prevê um colossal aumento de salário a partir de 2020. E não consta que o aspecto financeiro seja o principal motivo de suas decisões profissionais já há muito tempo. Se tanto, talvez seja uma das explicações para a perda de ambição, de ilusão, seja qual for o nome da carência que caracteriza seu jogo.

O São Paulo certamente adoraria receber os doze milhões e quinhentos mil reais que equilibrariam a planilha do que já investiu em Pato, sem falar no desaparecimento do restante do contrato de seus livros, mas, como se diz, cada um com os seus problemas. Os representantes de Pato não obrigaram o clube a assinar o papel que até agora não encontrou contrapartida esportiva, entrando no ano em que a relação custo-benefício promete se tornar ainda mais dramática. Se cobrar Pato por sua parte em campo já não estimula quem se importa com o São Paulo, censurá-lo por não abrir mão do que foi combinado revela a que ponto chegou a tendência a criticar jogadores ao invés de exigir desempenho de quem toma decisões. É um equívoco quase tão grande quanto a ideia de que basta um título estadual para que o São Paulo desperte da letargia que o consome.



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