Olhos



Uma das marcas dos melhores trabalhos de Vanderlei Luxemburgo era a capacidade de identificar virtudes desconhecidas em seus jogadores. Por vezes, desconhecidas até para os próprios. Além de perceber características que possibilitavam a utilização de futebolistas em papéis diferentes do que seria convencional em ocasiões específicas, Luxemburgo orientou o que se poderia chamar de “novas carreiras” para vários comandados. Essas passagens não pertencem a qualquer tipo de folclore motivacional que possa acompanhar a trajetória do atual técnico do Palmeiras, ou mesmo certas cartas potencialmente geniais – mas que nem sempre surtiram efeito – lançadas para confundir adversários em jogos decisivos. São exemplos da inquietação de um treinador que por metade de sua carreira se distanciou da concorrência porque pensava melhor.

Muller, no histórico, porém efêmero Palmeiras de 1996, talvez seja o principal exemplo de jogador redesenhado por Luxemburgo, ao se revelar um passador dotado da leitura e do refinamento necessários para brilhar servindo companheiros. Como viabilizador de um ataque que marcou mais de cem gols num campeonato estadual, Muller criava jogadas para Luizão, Djalminha e Rivaldo (se você não viu, deve ser capaz de ao menos calcular o que eram capazes juntos) como propostas para que eles se divertissem. Não eram passes, mas convites. Mais tarde, no Corinthians, Luxemburgo recuou Freddy Rincón para funções defensivas de meio de campo, com influência direta no início da viagem da bola ao ataque. O colombiano – explicou o técnico à época – não tinha problemas para receber de costas para a maior porção do gramado e, usando o corpo com maestria, saía para os dois lados com a mesma desenvoltura. Viu-se outro jogador, talvez superior ao anterior.

No Cruzeiro que conquistou três troféus em 2003, a visão de Luxemburgo proporcionou a Alex uma das melhores temporadas de sua vida, graças a uma sutil alteração de posicionamento – e, consequentemente, de função – que até hoje passa despercebida aos menos atentos. Sob Scolari, Alex era o quarto jogador do meio de campo, com contornos de armador clássico. Luxemburgo o converteu de arco em flecha, de 10 em 9,5, e o fez se adiantar da região entre o volante e o meia para a faixa entre o meia e o atacante. O interessante é que, mesmo mais próximo do gol adversário, Alex passou a ter maior participação na construção (o time de Scolari se organizava primordialmente com os laterais) do jogo em jornadas que ilustram o termo “craque” com todas as letras.

A versão de Felipe Melo como zagueiro parece um indício do resgate de uma forma de pensar o futebol que não caracterizou o Luxemburgo pós-2004, talvez um dos diagnósticos mais evidentes da segunda metade de sua carreira, opaca não só em conquistas, mas no jogo apresentado pelas equipes que dirigiu. O futebol não admite garantias, mas, mesmo que o experimento não tenha o sucesso desejado, a procura por soluções criativas pode representar uma mudança no modo de se relacionar com a rotina de preparação de equipes, um aspecto da profissão de técnico que não permite a suposição de que tudo já está feito e congelado. É curioso o paradoxo que pede um “novo” Vanderlei Luxemburgo, um profissional que tem insistido em negar a existência da novidade, quando está claro que o “velho” – um treinador claramente à frente de seu tempo – reinaria com suas próprias ideias.



MaisRecentes

Obrigado



Continue Lendo

Bedel



Continue Lendo

Que perda



Continue Lendo