Cipa



Tal qual essas campanhas de prevenção de acidentes no local de trabalho, os corredores das sedes do Flamengo deveriam estar repletos de placas celebrando o bom relacionamento com Jorge Jesus: “Estamos há (  ) dias sem irritar nosso treinador”. O humor do técnico português e sua opinião sobre o ambiente interno do departamento de futebol são assuntos sensíveis, que exigem cuidados diários no campeão brasileiro e sul-americano, especialmente por causa da questão contratual que mantém a dúvida sobre a permanência de Jesus a partir de maio. Em posição privilegiadíssima para fazer escolhas profissionais e pessoais, o arquiteto das conquistas de 2019 ganhou, também, o direito de ser tratado como uma espécie de alteza. Pode não ser sempre agradável, mas é necessário e assim funcionam as coisas.

Mas eis que Rodolfo Landim decidiu interferir no horóscopo rubro-negro ao demitir Paulo Pelaipe, um raro funcionário do clube com quem Jesus estabeleceu amizade fraterna. A pergunta, evidentemente, é por quê? A explicação política é só uma parte da verdade, uma vez que a eleição no Flamengo acontecerá no final de 2021. É cedo para que alvos sejam identificados e eliminados em nome da sustentação ou da tomada do poder, mesmo porque o campo de futebol tem muito a dizer sobre o panorama eleitoral até o ano que vem. Sim, a dinâmica Bap versus Braz é conhecida e a saída de Pelaipe pode ter sido uma armadilha para que o vice de futebol, sentindo-se desrespeitado, decidisse se retirar. Em qualquer caso, o motivo pelo qual Landim se arriscou a alienar Jesus, o que logicamente leva o episódio ao território do time de futebol, é a grande questão.

E o grande problema. Beira a insanidade imaginar que qualquer torcedor do Flamengo seja favorável a um movimento que prejudique a trajetória da equipe que encantou o país. A sequência do trabalho de Jorge Jesus não é uma garantia de que o time será bom como foi no ano passado, mas é preciso considerar a hipótese de que, com continuidade de ideias e contratações pontuais, o Flamengo seja ainda melhor em 2020. Com outro técnico, porém, as dúvidas aumentam por razões óbvias. O que leva a uma ponderação que precisa ser feita, no campo das possibilidades sugeridas pelo silêncio – e pela certeza de que a história não será devidamente contada por qualquer pronunciamento oficial – de Landim: é possível que o Flamengo já saiba que Jesus não renovará seu contrato. Essa é a única situação que justifica a demissão de Pelaipe e o desenho de um departamento que operará com outro treinador.

Em qualquer outro cenário, o risco que o presidente do Flamengo decidiu correr é alto demais, independentemente de sua proximidade com Bap, das vaidades que ascendem do sucesso num clube como o Flamengo ou de estratégias de poder que alimentam as telenovelas diárias do futebol brasileiro. O time de futebol deveria ser protegido pelos – e dos – gabinetes, algo que talvez seja complexo demais até para gestões competentes. O incômodo a Jorge Jesus parece uma demonstração de que, embora o time do Flamengo tenha se distanciado da concorrência no país, o clube preserva as mesmas características que se encontram em todos os demais.



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