Hodômetro



Jurgen Klopp não conseguiu conter uma sonora gargalhada quando ouviu de João Castelo Branco, correspondente da ESPN na Inglaterra, que a final do Mundial de Clubes da Fifa seria a septuagésima-quarta partida do Flamengo em 2019. Foi um riso nervoso, próprio de quem sabe identificar quando certos limites são desrespeitados, mesmo estando em posição de se beneficiar dos problemas alheios. Na conversa às vésperas da decisão em Doha, o técnico do Liverpool lembrou de seu primeiro ano no clube, quando alguns jogadores fizeram sessenta e quatro atuações. “É realmente um número inacreditável”, assustou-se, antes de perguntar se os mesmos onze titulares rubro-negros tinham sido utilizados em todos esses jogos, uma óbvia brincadeira.

Não foram, claro. Embora a gestão do elenco signifique um dos convites a reflexões que a comissão técnica de Jorge Jesus estendeu aos colegas brasileiros, é preciso salientar que a equipe considerada titular iniciou, com o técnico português, um total de oito jogos. Eram sete antes da final no Catar, a única derrota que este time sofreu. Quando Jesus diz, como fez ao diário português Record, que o Flamengo teria sido campeão mundial se o número de atuações fosse invertido, sugere um cenário fictício para inflar a qualidade de seu time. Este quadro só seria possível se o Flamengo jogasse no calendário europeu e o Liverpool no brasileiro. É tão eficiente como exercício quanto a ideia de que o Flamengo terminaria uma temporada da Premier League entre os primeiros colocados.

Os mundos do futebol são muito diferentes, e um dos piores defeitos do ambiente brasileiro é o excesso de jogos. É fácil descobrir onde está o exagero, mas aí será necessário abordar as relações entre clubes e federações estaduais, algo que não se encontra em nenhum outro lugar onde o jogo de futebol é parte importante da vida das pessoas. O erro se dá pelo desgaste acumulado ao final do ano e o preço que se cobra dos times mais bem-sucedidos, especialmente aqueles que conquistam o direito de, no último dos esforços, medir-se com um representante da elite do jogo, quase sempre uma verdadeira seleção internacional em ritmo de meia temporada. O cansaço do Flamengo na meia hora adicional em Doha foi gritante e mesmo assim houve suspense até o final. É fútil, porém, esperar simpatia dos arquitetos do ano futebolístico brasileiro. Os interesses deles são outros.

O que não quer dizer que tudo seja perfeito onde o jogo recebe o melhor tratamento. O mesmo Klopp que se impressionou com o hodômetro do Flamengo criticou a programação insana de jogos durante a virada do ano na Inglaterra. “Nenhum técnico vê problema em jogar no ‘boxing day’ (26/12), mas jogar no dia 26 e no dia 28 é um crime”, reclamou. A oferta de futebol no período festivo é uma antiga tradição inglesa, alimentada pelo desejo do público e pelo dinheiro dos direitos de transmissão, combinação que desrespeita o bem-estar dos principais envolvidos. “O corpo precisa de um tempo específico [de descanso] antes de ir de novo, mas nós ignoramos isso completamente”, disse o treinador alemão. Com quatro rodadas espremidas em dez dias, a Premier League teve cinquenta e três jogadores machucados.

O produto final sofre junto com os futebolístas, mas alguém dirá que as pessoas assistirão de qualquer jeito. Talvez, e aí está um outro problema sobre o qual é importante refletir. Na mesma entrevista a João Castelo Branco, Klopp declarou que “às vezes você pensa que o mundo é pequeno e você encontra todo mundo a todo tempo, mas é claro que, para nós, não é fácil assistir ao futebol brasileiro”. Não deveria ser assim. A única afirmação que pode ser feita, no entanto, é que Klopp continuará rindo.



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