Claro e óbvio



A neurose, infelizmente, também contaminou a Premier League. A primeira temporada inglesa com utilização do VAR está na metade de sua jornada, e o tipo de chilique ouvido durante o último Campeonato Brasileiro já têm tradução disponível a cada rodada, amplificado pelas redes antissociais. A ideia de que a intepretação britânica do protocolo do árbitro de vídeo teria um efeito esclarecedor para as demais ligas parece, agora, uma alucinação típica das festas de réveillon em seus momentos mais profundos, quando não se sabe ao certo o que é sonho e o que é realidade.

As responsabilidades precisam ser atribuídas e uma delas, obviamente, é do departamento de arbitragem da Premier League. Após um início promissor em que o uso da ferramenta indicou um olhar ponderado para a novidade, os jogos do Campeonato Inglês tomaram um caminho estranho: da aparente relutância a recorrer ao vídeo a um exagero de repetidas e longas intervenções. Por vezes, a opção de ir ao monitor pareceu um recurso incômodo para os árbitros, como se tivessem sido orientados a resistir ao máximo. E desde o início, a impressão de uma forma particular de aplicar o que hoje faz parte da regra do jogo – algo que não deveria ser permitido, por lógico – sugere uma situação problemática.

A última rodada, quando cinco lances em que os chamados “impedimentos ajustados” provocaram histeria generalizada, gerou um posicionamento do International Board (IFAB): os ingleses estão errando na aplicação do VAR ao não abordar jogadas de impedimento com o conceito do “erro claro e óbvio”. Curioso, porque o documento enviado aos detentores de direitos da Premier League informava que esse tipo de lance seria julgado de forma objetiva, ou seja, sim ou não. De modo que, se está errado agora, já estava errado antes. A crítica de que as intervenções do VAR inglês mais parecem “investigações forenses” indica uma pergunta inevitável: a tecnologia atual é capaz de solucionar esses casos com precisão confiável? Se sim, ou um jogador está impedido ou não está, independentemente de “quanto”. Se não, a lei do impedimento, crucial para o aspecto tático do jogo de futebol, precisa se adequar.

Se o IFAB quer que lances de impedimento sejam observados com o filtro do “erro claro”, é sua obrigação definir o que é isso. Menos do que vinte centímetros é ok, mais não? Trinta centímetros? Meio metro? Onde traçar a linha do que é aceitável como margem de erro e o que deve ser corrigido pelo vídeo? Sem esquecer que, onde quer que essa linha esteja, sempre haverá situações limítrofes em que a precisão da tecnologia será questionada. Diz-se que quando são necessários múltiplos replays para chegar a uma conclusão, então a marcação do árbitro de campo deve prevalecer. Mas a questão não é essa, e sim se a tecnologia é capaz de produzir uma decisão confiável. Se é, que se trabalhe para diminuir o tempo das checagens, sempre priorizando o acerto e a devida informação ao público dentro e fora dos estádios. Se não é…

O IFAB promete encaminhar orientações nas próximas semanas a todas as competições que utilizam o VAR, no sentido de corrigir situações que têm causado preocupação. O assunto será revisitado na reunião do órgão, em fevereiro, que pode trazer ajustes ao protocolo de utilização do árbitro de vídeo. O ponto, porém, é a insatisfação crônica e a necessidade de eleger culpados ao final de cada jogo, combinada com a nostalgia infantil de que o futebol era melhor quando árbitros sofriam massacres porque não podiam acionar os mesmos recursos que justificavam seus linchamentos públicos. Ainda há meia Premier League por jogar. Na primeira temporada com VAR. Quem dera a exigência fosse tão rigorosa em temas muito mais importantes do que o futebol.



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