Conciliação



Não é preciso captar o espírito das festividades de fim de ano para compreender o significado da atuação – e da derrota – do Flamengo na final do Mundial de Clubes da Fifa. É perfeitamente possível conciliar o elogio ao comportamento do melhor time brasileiro em muito tempo a disputar a decisão do troféu e a conclusão de que o objetivo principal não foi alcançado, sem converter o jogo contra o Liverpool numa versão clubística do Sarriá em 1982. Numa era caracterizada por extremos irredutíveis, é necessário, primeiro, reconhecer a existência do meio do caminho. É geralmente onde a verdade está.

Para começar, um fato: o Liverpool foi retirado de seu elemento na segunda metade do primeiro tempo em Doha. O que significa que, por um trecho significativo do encontro, as coisas não andaram como desejava o time inglês e o conjunto superior em campo foi o Flamengo. É provável que um recuo planejado após dez, quinze minutos de pressão inicial fosse a ideia traçada por Jurgen Klopp, mas negar que o Liverpool foi conduzido a uma posição desconfortável demais, e por muito tempo, é o equivalente a entender o futebol como um jogo unidimensional. Os sinais inequívocos deste incômodo foram os gritos de van Dijk e as expressões faciais do técnico alemão.

A raridade e as circunstâncias especiais deste tipo de enfrentamento geram impressões momentâneas que podem ser revisitadas à luz de um contexto mais amplo. Quando se percebe o time europeu, favorito evidente, claramente removido do roteiro esperado, a reação instantânea é suspeitar que o desfecho do jogo pode ser outro. Ao final, considerando os 120 minutos, entende-se que aquela janela não foi um indício de algo mais relevante, mas o único período da decisão em que o Flamengo poderia ter influenciado o resultado. O mérito é indiscutível e insuficiente, pois o que se viu no segundo tempo e durante a prorrogação – indesejada por causa do calendário insano do futebol inglês nesta época, mas visivelmente marcada pela superioridade física do Liverpool – justifica, sem ressalvas, a vitória do time de Firmino e Klopp.

O mérito reside na bravura de enfrentar o campeão europeu sem se descaracterizar em nome da diferença técnica e de investimento, provando que é viável jogar de uma outra forma, quando se é capaz. É preferível perder assim a vencer como, por exemplo, o São Paulo em 2005 e o Corinthians em 2012? Essa é uma pergunta retórica cuja resposta é automaticamente oferecida pelo resultado final, mas que não pode deixar de ser elaborada pelas características dessas equipes. O Flamengo de 2019 é consideravelmente a mais forte entre elas, construída para jogar da maneira que foi ratificada no Catar, em seu exame mais rigoroso. São Paulo e Corinthians, em seus momentos, atuaram conforme o que se esperava deles, primordialmente se defendendo e aproveitando ocasiões raras. Seria uma pena ver o Flamengo dispensar as próprias virtudes; seria trágico ver São Paulo e Corinthians simularem virtudes que não tinham.

O debate que se trava desde sábado renova a fantasiosa questão entre “ganhar jogando mal e perder jogando bem”. O futebol, como nenhum outro jogo, permite vitórias improváveis, sim, mas elas jamais serão produtos de coisas mal feitas. A derrota do Flamengo é do tipo que, junto com a frustração que alimenta o competidor, produz o orgulho de quem foi honesto consigo mesmo. É o oposto do arrependimento dos impostores.



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