Distância



Três técnicos de clubes do Rio de Janeiro apareceram em entrevistas coletivas nesta semana. Apresentado na quarta-feira em São Januário, o novo treinador do Vasco, Abel Braga, tornou célebre a ocasião por uma declaração elogiosa à sinceridade do presidente do clube, Alexandre Campello. “Ele me disse: vou te pagar, mas não pense que vou te pagar em dia”, revelou Abel. “Se pagar em dia, vai ser uma surpresa legal. Se não pagar, eu já estou sabendo”, completou. O ano que terminaria com o movimento da torcida vascaína para multiplicar o programa de sócio-torcedor do clube será concluído com um certificado de amadorismo. O dito profissionalismo se expõe como uma ação entre amigos que apresenta o Vasco como mau pagador, numa tentativa de sugerir que a simples união de forças será capaz de levar o clube adiante. Não será. O caminho da reestruturação passa obrigatoriamente pelo fim de práticas como a que estabelece compromissos que não podem ser sustentados regiamente.

Os efeitos morais de não negar que deve e pagar quando pode são vários. Um deles é a impressão, aos olhos da opinião pública, de que técnicos e jogadores aceitam a conversão de seu trabalho numa espécie de acordo beneficente com o clube. O que permite a leitura, caso as coisas andem mal, de que qualquer cobrança – algo inerente à natureza desse ambiente profissional – não terá mérito, pois, afinal, são credores de quem deveria remunerá-los em dia. Outro é a sugestão, que já virou discurso, de que não há problema no atraso de salários em clubes de futebol, pois quem ganha tanto não precisa receber todos os meses. A distorção da relação profissional baseada na suposição dos orçamentos alheios é um exercício de ignorância que não conhece limites, porque estabelece parâmetros conforme a opinião de quem o faz e esquece, propositalmente, das obrigações de parte a parte. É possível que a única promessa a Abel que o Vasco cumprirá seja a de não pagar todo dia cinco. Neste caso, o elogio dará lugar ao ressentimento e a união de forças não passará de uma ideia bonita, porém fantasiosa.

No dia seguinte, o Fluminense também introduziu seu técnico para 2020, Odair Hellmann. Na conversa com repórteres no centro de treinamentos do clube, não houve menção a pagamentos infrequentes. Ao contrário, o compromisso dos superiores do treinador é evitar que o ambiente seja contaminado por atrasos de salários, embora a ressalva de que a realidade orçamentária do clube será “mais enxuta” do que em 2019 tenha sido feita com todas as letras. Durante a apresentação, Hellmann lançou um apelo público a Caio Henrique e Allan, jogadores que ainda negociam as renovações de seus contratos. “Que fiquem com a gente e aceitem a proposta do presidente, dentro do esforço máximo, talvez até além do que o Fluminense possa”, disse. Se os futebolistas optarem por jogar em outro lugar, a procura por substitutos se dará num mercado em que o clube “não tem condições de fazer compras de valores muito altos”, completou. Eis um cenário em que o Fluminense tem a companhia de muitos, basta notar a quantidade de dirigentes falando em “trocas de jogadores” na montagem de elencos para o ano que vem.

O terceiro técnico de um clube carioca a ser entrevistado durante a semana, obviamente, foi Jorge Jesus. E o tema, também obviamente, foi o Mundial de Clubes da Fifa e a possibilidade de mais um troféu em 2019. A comparação das três entrevistas leva a um contraste automático. O Flamengo dispõe de quase 140 milhões de reais para contratar jogadores – ou um técnico, se Jesus não permanecer – que serão muito bem remunerados, e rigorosamente em dia. Ao tomar conhecimento do que se disse nas apresentações de Abel e Odair, dirigentes envolvidos na tomada de decisões no clube rubro-negro experimentam a agradável sensação de saber que rivais tradicionais não serão ameaças por muito, mas muito tempo.



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