Projeção



A volatilidade das demandas de Jorge Sampaoli durante as reuniões com o Palmeiras indica um comportamento pouco profissional. O ex-técnico do Santos trocou de representantes e surpreendeu os interlocutores palmeirenses com exigências de última hora, uma postura própria de quem não negocia com o objetivo de encontrar um território comum. Acertou o Palmeiras ao notar os sinais de um relacionamento perigoso adiante e se levantar da mesa – o que não significa concordar com a opção por Vanderlei Luxemburgo –, mas é preciso considerar um dos motivos, ao menos um motivo declarado publicamente, de Sampaoli para justificar o desacordo.

“O Flamengo avançou muito nas comparações com os demais”, explicou Sampaoli à agência de notícias Efe, em passagem por Madri. O raciocínio vale tanto para a decisão de deixar o Santos quanto para não celebrar contrato com o Palmeiras, o único clube brasileiro visto por ele, no início de 2019, como capaz de desafiar o atual campeão nacional e sul-americano. Não está claro se o curso da temporada alterou essa impressão, ou se as conversas de seus agentes com a direção palmeirense mostraram a Sampaoli que o ano que vem seria mais complexo do que ele imaginava. Um fato parece indiscutível: o técnico vice-campeão brasileiro dificilmente terá, em qualquer lugar onde o futebol é importante, uma oportunidade tão atraente para ganhar o título. Mesmo assim, decidiu não trabalhar no país. “Minha ideia de ficar [no Brasil] era para brigar pelo torneio”, disse.

Aí está. A superioridade do Flamengo no plano doméstico, principalmente no campeonato de pontos corridos, não é uma imagem exagerada ou resultado de uma disputa caracterizada por desequilíbrios que não sejam técnicos. Se é correta a referência a um campeonato “atípico”, a razão é o desempenho acima do normal do time que não só colocou os demais – parafraseando Bruno Henrique, embora o momento da declaração tenha sido equivocado – “em outro patamar”, como determinou que este patamar estivesse distante. O Flamengo reescreveu todos os recordes que importam no Campeonato Brasileiro, mas não é exagero dizer que a disparidade de jogo em relação aos concorrentes tenha sido ainda mais significativa do que mostram os números.

A opinião de Sampaoli é o diagnóstico de quem sabe, de um jeito que só técnicos conhecem, o que é necessário para ganhar no futebol. Neste caso específico, a questão é construir e dirigir uma equipe que tenha condições de se apresentar como rival do Flamengo ao longo da temporada, parâmetros que ele não conseguiu enxergar no projeto do Palmeiras para 2020. Alguém poderá dizer que Sampaoli não quis enxergá-los. Ok, mas, se essa é a verdade, por quê? Se o potencial estava ali, por qual motivo um técnico na posição dele optou por negá-lo? Os pedidos repentinos que incomodaram o Palmeiras eram aditivos (passagens aéreas, percentuais em premiações…) a um contrato cujas bases financeiras estavam acordadas.

Para clubes com pouca capacidade de investimento, a esperança de competitividade no ano que vem parece depender de mudanças que levem um time que tem seis meses de vida a ser pior em sua segunda temporada, ou por perdas na comissão técnica e no elenco, ou pela doença da satisfação. Não é uma perspectiva animadora. O sucesso do Flamengo em 2019 pode ser uma projeção da lista de tarefas da concorrência. Sampaoli viu e não gostou.



MaisRecentes

Obrigado



Continue Lendo

Bedel



Continue Lendo

Que perda



Continue Lendo