Sentença



Não acontece sempre, mas decisões como a de hoje costumam assumir um papel mais relevante na eterna discussão sobre sucesso e fracasso no futebol. E já se pode determinar de que forma o final da partida em Lima repercutirá quando o assunto for o Flamengo de 2019 e seu lugar em rankings pessoais ou programas de debates na televisão. A vitória trará a validação esportiva para tudo o que se pensa e se sente sobre o jogo que o Flamengo pós-Copa América apresentou, como se fosse obrigatória para chancelar a jornada. A derrota será a morte na praia, o desfecho que desmente a narrativa, mais um episódio de emoções cantadas, mas não vividas. Ao contrário do que se diz, não é uma questão de como se enxerga este jogo ou mesmo de preferências particulares que formam opiniões predispostas ao conflito, não ao diálogo. Trata-se, sim, de como cada um se relaciona com o que julga amar.

Se você não torce para o Flamengo e/ou resume o futebol a seu time, interrompa a leitura. Além de haver diversas maneiras mais interessantes de gastar os próximos minutos, esta coluna destina-se a outro tipo de leitor. Se prosseguiu, receba um agradecimento e responda: é possível NÃO GOSTAR de ver o Flamengo jogar? É razoável PREFERIR “outro tipo” de futebol? Você tem cinco segundos. Vê? Independentemente do que se aprecie ou não em matéria de comportamento de equipes – há quem se confesse amante de “futebol vertical”, seja lá o que for isso – existe um nível de exibição capaz de agradar a quem, de fato, reserva ao futebol um espaço importante na vida. Não tem nada a ver com modelos ou sistemas (ou melhor, claro que tem, mas esse não é o ponto principal aqui), mas com aquilo que um time proporciona às pessoas quando se apresenta.

Pode-se construir um caso com argumentos respeitáveis de que esse aspecto da “experiência futebolística” está completamente separado do resultado. Há equipes lendárias na linha do tempo do jogo que ali estão, e sempre estarão, não apenas porque venceram. Algumas permanecem intactas como ícones de excelência mesmo sem terem vencido. Quantas estão neste patamar só por causa de uma conquista? Fique à vontade para dissertar sobre o time campeão da Euro 2004 e seus notáveis destaques. Não se discute a importância de qualquer título alcançado em campo, nem o significado da autenticação que troféus conferem ao caminho que os antecede. O problema é a tendência a resumir a influência de times ao que ganharam ou não, porque o jogo é sarcástico a ponto de fazer escolhas inexplicáveis no momento de premiá-los.

O Flamengo será coroado campeão brasileiro em algum momento nos próximos dias, um título – atenção, trolls – mais importante do que o da Copa Libertadores como medida da qualidade de uma equipe. A fábula de 1981, somada à espera pela reforma das finanças do clube e a promessa de um futuro em que haveria craques e alegrias em campo, fermenta o desejo represado por um troféu simbólico cujo valor não está em debate. Mas a conquista, por óbvio, não é uma garantia e sua eventual ausência não pode ser uma sentença para um time que não tem seis meses de vida. Porque um componente fundamental do ambiente em torno do Flamengo nas últimas semanas, por mais incômodo que seja a quem não é Flamengo ou não quer compreender as coisas, reside em algo mais raro do que ganhar um torneio: um futebol do qual não é possível não gostar.                          



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