Efêmero



Vanderlei Luxemburgo surgiu na sala de entrevistas do Maracanã, na madrugada de quinta-feira, para seu momento sublime em 2019. Nada de que o Vasco possa se orgulhar na temporada tem tamanho para se equiparar ao 4 x 4 com o fenômeno do momento, o rival de sempre. De fato, uma pesquisa retrospectiva terá dificuldade para encontrar algo semelhante nos muitos anos recentes, não para o Vasco, mas para seu técnico. É provável que o próprio Luxemburgo não tenha uma resposta imediata para a pergunta sobre quando, onde e por que esteve nesta situação pela última vez.

Suas impressões digitais eram visíveis no resultado. Sua orientações, notáveis no comportamento do time. Sua capacidade de decifrar o adversário, perceptíveis a ponto de expor o que ainda não se tinha visto. Ali naquela sala, com o microfone à disposição e a atenção de todos assegurada pelo tempo que fosse necessário, ele estava prestes a reivindicar o que lhe pertencia. A audiência esperava, com a certeza do nascer do sol, um discurso em primeira pessoa elaborando, em detalhes, como Luxemburgo reviveu suas grandes noites à beira do campo e presenteou seus jogadores com o caminho para o que eles imaginavam impossível. Seu time, seu plano, seu mérito.

Quando Vanderlei Luxemburgo representava a vanguarda dos treinadores do futebol brasileiro, a sala de entrevistas era a arena em que ele derrotava oponentes – reais e imaginários – após vitórias que exibiam seu brilho indiscutível. Nenhum elogio era suficiente, nenhum defeito era reconhecido, nenhum detalhe escapava a seu olhar visionário. Seus times venciam com requinte técnico e surpresas táticas, com classe e energia, com jogo e resultado. Mais ou menos como o Flamengo tem feito, sob o comando de um treinador nascido em outro país, com quem ele compartilha certos traços de personalidade. Numa noite em que o Maracanã monopolizou o debate futebolístico no Brasil, na qual se esperava que seu time aumentasse o rastro de destroços que o Flamengo tem deixado para trás, Luxemburgo tinha, finalmente, seu “momento Cristiano Ronaldo”. A ocasião para declarar da maneira mais enfática possível: eu estou aqui.

Na medida em que as perguntas se sucederam, porém, um moderado Luxemburgo se dispôs a explicar como preparou seu time para jogar o clássico. Não alterou a voz nem mesmo para pedir respeito pela camisa e pela tradição do Vasco da Gama, em busca da pontuação para se manter na primeira divisão. Não tentou se apropriar do produto coletivo da atuação de seus jogadores. Teria sido a menos característica de suas entrevistas em ocasiões como esta, não fosse uma intrigante menção, repetida, sobre seu lugar na profissão: “Se você pegar a minha história dentro do futebol, o meu currículo dentro do futebol, se botar a nível mundial, acho que poucas pessoas têm o currículo que eu tenho”, disse, textualmente, numa declaração que guarda nível de mistério comparável ao fato de o Flamengo ter sofrido quatro gols.

Exceto o arroubo imodesto, a conversa prosseguiu em tom controlado, quase discreto. Havia algo de estranho, uma cena em que fatos e personagem não se complementavam, como se fossem alheios e não devessem se relacionar. Onde estava a persona superlativa, sempre pronta a gravar seu autógrafo em aulas maestras que seriam relatadas com admiração e dissecadas por novas gerações deste ofício? A resposta, como é frequente, está na realidade das coisas. A equipe que lidera e encanta não era a dele. Os futebolistas formidáveis em campo não estavam sob suas ordens. Em última análise, a noite terminou em empate e um empate jamais será um tesouro para quem venceu tanto.

Ao sair da sala, Luxemburgo não conseguiu explicar por que esta versão de seu time só apareceu numa quarta-feira de clássico no Maracanã, algo efêmero demais para ser reivindicado, até mesmo por ele.

 

 

 



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