Melhor pior



Em um trecho de “Os Números do Jogo”, livro lançado em 2013, os economistas David Sally e Chris Anderson apresentam uma das grandes diferenças entre o futebol e o basquete. Enquanto no basquete – um esporte baseado no “elo forte” de uma equipe – o que mais interessa é o quão bom o seu melhor jogador é, no futebol – um jogo do “elo fraco” – a qualidade do seu pior jogador é um fator determinante. Pense na frequência em que, por exemplo, James Harden tem impacto decisivo no resultado de jogos do Houston Rockets. Agora pense na frequência em que Dudu ganha partidas para o Palmeiras.

O fato de Lionel Messi constantemente ser o motivo pelo qual o Barcelona vence não deve ser utilizado para confrontar a ideia, mas para tentar entender o fenômeno que ele representa. Mesmo porque o raciocínio de Sally e Anderson se verifica sempre que Messi joga muito e seu time não ganha, ocasiões em que o chamado elo fraco aparece para mostrar por que o futebol é o esporte mais coletivo que existe. Um jogo em que a importância dos erros é multiplicada por sua conversão em gols que decidem encontros. E como erros são cometidos, na maioria das vezes, pelos jogadores menos dotados, os futebolistas que destoam de seus companheiros acabam se associando aos resultados finais.

É curioso pois times de futebol são apresentados e se tornam conhecidos por intermédio de suas estrelas, mesmo que o nível de seus jogadores menos cotados esteja mais intimamente relacionado ao sucesso ou fracasso. Se o “pior” jogador de uma equipe é superior a seus equivalentes nos adversários, é possível fazer uma avaliação mais precisa das distâncias técnicas entre os times. O Barcelona de Messi, a Juventus de Cristiano Ronaldo, o Liverpool de… é difícil escolher o melhor jogador do atual campeão europeu, mas eleger o elo fraco do time dirigido por Jurgen Klopp é uma tarefa ainda mais complexa. Num exercício envolvendo outros elencos europeus de destaque, as respostas aparecerão em menos tempo.

Aqui no Brasil, situação semelhante se dá com o Flamengo. Quem é a estrela do campeão brasileiro a ser coroado em breve? Gabriel Gol? Bruno Henrique? Everton Ribeiro (chamado de “o nosso Messi” por Filipe Luís)? Gerson? Ocorre que o raciocínio inverso também não é simples. Considerando o time titular – que representa a maior diferença entre o Flamengo e a concorrência –, qual jogador poderia ser apontado como “mais fraco”? E essa, ainda, não é a pergunta relevante.

O que importa é a comparação entre o “pior titular” do Flamengo e os jogadores que ocupam essa posição nos demais times. É provável que essa relação seja mais realista a respeito da supremacia técnica do time de Jorge Jesus do que a qualidade de Gabriel (se é que ele foi a sua escolha). Está evidente que o Flamengo é uma reunião de futebolistas tecnicamente privilegiados, na qual os que brilham mais recebem aplausos correspondentes. De acordo com Sally e Anderson, também é necessário aplaudir quem brilha menos.



MaisRecentes

Gabriel Gol, 43



Continue Lendo

Parede



Continue Lendo

Paladar



Continue Lendo