Luxo



O ano mal tinha começado e Jorge Sampaoli já sabia como terminaria. Ao menos em relação a seu time. A diferença de capacidade de investimento entre o Santos, o Flamengo e o Palmeiras seria determinante, e, embora um trabalho bem feito pudesse gerar elogios por superar expectativas, apenas amenizaria a distância técnica entre os times. O desenrolar da temporada lhe dá razão, mesmo que o líder do Campeonato Brasileiro exiba um desempenho acima de todos os registros, e a pontuação do vice-líder esteja no patamar de títulos anteriores. O que Sampaoli desejava ao chegar ao Santos é a mesma coisa que provavelmente o impedirá de seguir: condições que lhe permitam fazer mais do que perseguir os clubes financeiramente mais potentes do país.

O modismo do “treinador estrangeiro” – expressão que os reúne, todos, independentemente do passaporte, da formação e das ideias, sob um mesmo rótulo – é genitor de outra generalização ignorante; as referências ao “treinador brasileiro”. Em parte, o antagonismo é alimentado por declarações infelizes de técnicos acostumados a um ambiente de competição em que todos, mais ou menos, são colegas conhecidos. Como não há relação prévia com Sampaoli e Jorge Jesus, fica mais fácil estocar, mesmo que soe como despeito. E soa, muito. Por vezes, soa como algo mais profundo. De “o Flamengo joga como o Brasil de setenta”, de Argel Fucks, a “Jesus dirige uma seleção”, de Renato Portaluppi, passando por “não sei que termo é esse (“caça ao homem”, a propósito da violência dos jogadores do Botafogo) que ele veio usar aqui no Brasil”, de Alberto Valentim, há um pouco de tudo. Até dificuldade de relacionamento com a língua portuguesa.

A questão não é diretamente com a pessoa, mesmo porque não haveria razões plausíveis. É com a posição. Note que Sampaoli – trabalho altamente elogiável, mas em terceiro lugar na classificação – não tem sido alvo frequente. Os dardos vão na direção de Jesus, que lidera com muita folga e muito jogo, separando-se do que é normal e, portanto, palatável. E como o treinador português, fazendo jus ao perfil de personalidade que já era conhecido antes de sua chegada, não tira o pé do acelerador também nas entrevistas, os duelos prosseguem mesmo quando os jogos terminam. As diferentes posturas, quase sempre com versões de “com esse time, até eu”, perdem-se entre a depressão e o desconhecido, pois não há como verificá-las. Somente Jesus dirige o Flamengo na rota do título brasileiro e da Copa Libertadores, sem deixar passar qualquer ocasião para que este fato fique bem claro.

E é aí que está. Os demais seguem em outros lugares, em cenários muito distintos, certamente imaginando como seria operar com os luxos que o Flamengo disponibiliza a um treinador recém-chegado de longe. Talvez haja até quem considere inadequado que tanta fartura seja oferecida a um técnico que não tem trajetória no futebol brasileiro, como se houvesse algum pré-requisito além da capacidade. Ainda não se ouviu algo no sentido de “Jesus precisa dirigir um time da Série B para provar que é bom”, mas é conveniente não apostar contra essa possibilidade. Enquanto o ambiente se dividir entre o treinador brasileiro e o estrangeiro, o futebol no país não dará o salto necessário.



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