Maletas



“O modelo de jogo reflete a personalidade da equipe, e, portanto, o caráter do treinador”, escreve Martí Perarnau na abertura de um dos capítulos de “Pep Guardiola – A Evolução”, seu segundo livro sobre o treinador catalão. “Como sabem, um encanador não leva em sua maleta os mesmos instrumentos de um cirurgião, e um carpinteiro não leva um colete salva-vidas. O treinador é quem oferece esse modelo à equipe, baseado em seus fundamentos de jogo”, explica.

Mais adiante, Perarnau apresenta as diferenças entre modelo, plano e sistema de jogo:  o modelo é a “caixa de ferramentas que o treinador oferece ao time”; o plano é o “conjunto de elementos específicos e a dinâmica de jogo com que se enfrenta uma partida”; o sistema é “a distribuição espacial dos jogadores em campo em cada momento específico de uma partida”. Pode-se elaborar planos distintos, utilizando sistemas diversos, dentro de um mesmo modelo. Pode-se ter modelos semelhantes, baseados em fundamentos diferentes, pois nenhum treinador é igual ao outro.

É um equívoco afirmar que o fracasso do Corinthians em 2019, sob direção de Fábio Carille, representa o fim do “modelo” utilizado nos últimos dez anos, período mais glorioso na história do clube. Se tanto, a saída de Carille significa a derrota da maneira como ele aplicou o modelo nesta temporada, um modelo que não é “do Corinthians”, mas sim de seu ex-treinador. Pois há distâncias bem evidentes entre times dirigidos por Mano Menezes (2009) e Tite (2015) e esta última versão comandada por um profissional moldado por ambos. Além da miopia que acompanha as generalizações, a redução de dez anos a um “mesmo tipo de futebol” é especialmente injusta com o conjunto que conquistou o penúltimo título brasileiro do Corinthians, provavelmente o melhor trabalho da carreira de Tite.

Entre todos os debates sugeridos pela forma como joga o Flamengo atual, há uma lamentável confusão em andamento que se origina na caracterização definitiva de equipes de futebol, como se o jogo fosse separado entre “times que jogam no ataque” e “times que jogam na defesa”. Trata-se de uma impossibilidade, já que não há quem só ataque ou só se defenda. A conservação da bola, uma das marcas do modelo de Guardiola, tem um claro aspecto defensivo. O desarme no campo do adversário, característica do modelo de Jurgen Klopp, também é uma ferramenta ofensiva.

A chegada de Tiago Nunes ao Corinthians pode soar como uma “ruptura” em relação ao que o time foi em 2019 – e certamente, também, no final de 2018, com Jair Ventura –, mas nem tanto quanto a 2017, principalmente no primeiro turno do Campeonato Brasileiro. Se a conversa retornar a 2015, o uso do termo perde qualquer sentido. Num panorama nacional que pode ser descrito por poucos times que agem e muitos que reagem, o “modelo” de Tiago situa-se, sozinho, com um pé em cada grupo. É capaz de controlar com posse e de ferir com transições, de acordo com o adversário e o desenrolar da partida. Mas, importante frisar, é um modelo que só foi visto no Athletico, com os jogadores que ali estavam.



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