Sarrafo



A coluna se atreve, mesmo sem ter sido convidada, a dar sequência ao debate sugerido por Carlos Eduardo Mansur em seu espaço no jornal O Globo: “O equívoco é concluirmos que, agora, todos os treinadores do país deverão ser compelidos a implantar o sistema do Flamengo, o modelo de Jorge Jesus”, escreveu Mansur, excelente como de costume, na última segunda-feira. O assunto é a diversidade de ideias e o respeito à maneira como cada técnico enxerga o jogo, pois o idioma futebolístico é composto por vários dialetos. Sob pena de parecer cabotino, mas com satisfação pela companhia, esta mesma página apresentou argumentos semelhantes no sábado passado, em meio a elogios indiscutíveis a Jesus e seu time pela virada na direção do “como” e das sensações que o futebol proporciona.

Nada, obviamente, é tão persuasivo quanto o próprio jogo, e a noite de quarta-feira foi ilustrativa para a conversa. No confronto de dialetos apresentado pelo clássico entre Palmeiras e São Paulo, o vencedor, como é frequente, foi o time mais fluente na forma que escolheu para se expressar. Se houvesse um verbete para a expressão “jogar bem”, um dos significados certamente seria “utilizar as ferramentas de jogo que aproximam uma equipe da vitória”. As ferramentas variam de técnico para técnico, de time para time, e, claro, de jogadores para jogadores. Também variam de uma partida a outra, conforme as características do adversário e as circunstâncias do encontro. Neste aspecto, mais uma vez, o jogo no Allianz Parque foi didático. Após anunciar uma reforma na organização ofensiva do Palmeiras e falar em “ataque posicional” ao comentar a vitória sobre o Avaí, Mano Menezes retornou ao que o time fazia antes mesmo de sua chegada para vencer o São Paulo.

Era o que o clássico pedia, considerando a abordagem que o São Paulo usaria e as virtudes dos jogadores à disposição de Mano. Diante de um oponente que naturalmente teria mais posse e tentaria levar o jogo a ser disputado no campo de ataque, o manual de estratégias indicava um plano de aproveitamento dos espaços, não necessariamente de criação destes. Em resumo, ao invés de estar na metade são-paulina do gramado (condição para o ataque posicional), o Palmeiras deveria chegar a ela. No lugar de atacantes posicionados em áreas delimitadas e circulação da bola com paciência, liberdade de movimentação e transições rápidas. O primeiro gol, que tornou o jogo desconfortável para a equipe dirigida por Fernando Diniz, resultou de um lançamento longo para Dudu e da aparição de Bruno Henrique onde não havia marcação. O terceiro foi um contra-ataque de um escanteio cobrado por Daniel Alves, em que Zé Rafael cruzou o campo até fazer a assistência para Gustavo Scarpa.

A escolha por um jogo mais elaborado, com outros futebolistas escalados e funções alteradas (Dudu atuando como ponta próximo à linha lateral, por exemplo, para esticar o campo e aguardar a bola) também poderia ter conduzido o Palmeiras à vitória, mas certamente não parece a melhor opção de acordo com as qualidades e fraquezas do adversário. O que não quer dizer que o Palmeiras deva jogar assim sempre, pois, quando enfrentar times que se defendem recuados, a tarefa será criar o espaço por intermédio da desorganização do rival. É este tipo de situação, muito mais frequente no futebol brasileiro, que Mano menciona ao falar da exigência de uma “outra maneira de atacar”, como disse em entrevista na semana passada.

O Flamengo é a única equipe brasileira capaz de ser dominante a seu próprio modo, independentemente de oponente, local e condições. Os demais devem se adaptar a contextos de competição na busca da abordagem mais vantajosa, mesmo que seja algo ocasional. Até o mais dogmático dos treinadores atuais, Pep Guardiola, pensa o jogo assim. Para o futebol no Brasil, o legado da forma como Jorge Jesus utiliza as condições que o Flamengo lhe oferece é o dilema sobre ser melhor. O sarrafo foi erguido a uma altura em que, por ora, só há um competidor saltando.



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