Miragem



Se alguém que não soubesse nada do Brasil e do ambiente de futebol no país fosse levado ao Maracanã na noite de quarta-feira, sairia maravilhado com o que viu, ouviu, sentiu. O Flamengo e seus torcedores proporcionaram a grande noite do futebol brasileiro nos últimos anos, com tudo o que se pede de um espetáculo dessa natureza: estádio simbólico, grande público, renda milionária, ótimos jogadores em campo, futebol de ataque e muitos gols. O exemplo anterior a esse foi a goleada sobre o Goiás, em julho, no mesmo local. Mas o tamanho do adversário precisa ser levado em conta. No fechamento do confronto que valia uma vaga na decisão da Copa Libertadores, o oponente era o Grêmio, semifinalista pelo terceiro ano seguido. O fetiche da Conmebol pela Liga dos Campeões da Uefa assegura que outra ocasião como essa não acontecerá nesta edição do torneio, o que, se por um lado impede que dezenas de milhares de torcedores vejam de perto o Flamengo jogar pelo troféu, por outro, ao menos, torna os 5 x 0 ainda mais especiais.

Fosse, de fato, um retrato do que é o futebol nacional, haveria muito a aplaudir. Mas é mais uma miragem do que o jogo pode chegar a ser por aqui, cortesia de um de seus clubes. Como ideal a alcançar, porém, serve como um quadro pendurado nos gabinetes, um estímulo para que se trabalhe melhor. Considerando que a obrigação de dirigentes é administrar clubes com competência (no sentido mais amplo), oferecendo ao torcedor o melhor “produto” possível e facilitando a ocupação de estádios, o Flamengo, como instituição, aponta o caminho certo. Levando a conversa para dentro do campo, o time atual se distingue por apresentar um futebol que agrada e vence, o tipo de jogo que desnuda a escolha mentirosa sobre jogar bem ou ganhar. Ainda não tem a conquista que o valide, parece mera questão de tempo, mas já provou o que acontece quando se elege um perfil ofensivo e se tem coragem para persegui-lo.

Não, não é para todos e muito nesse processo está relacionado a condições distintas. Seria um equívoco tentar replicar o modelo de futebol do Flamengo sem respeitar características e circunstâncias que operam em todos os clubes brasileiros. O ponto é o que se busca, e, especialmente, como. Menotti já disse que jogava “para vencer, não para derrotar”, pois assim “somos mais felizes quando ganhamos e menos tristes quando perdemos”. O Grêmio e sua história recente com Renato Portaluppi ilustram o debate; o time de 2017 costuma ser mencionado como o melhor que o clube já teve, justamente pelas sensações proporcionadas a quem o viu, não apenas por ter sucesso. Não é preciso esperar o Flamengo vencer o Campeonato Brasileiro, ou a Libertadores, ou ambos, para saber onde esse time está no território do que o jogo de futebol provoca nas pessoas.

É o mesmo território que evoca as menções sobre “o Flamengo de Zico”, um patrimônio de honra futebolística utilizado para medir o nível de tudo o que veio depois. Por muito tempo, citá-lo, no Flamengo, foi um devaneio profano, um recurso de tresloucados que ignoram o que não sabem. Não mais. Embora o time dirigido por Jesus não tenha um ícone como ele, seu jogo completa a viagem no tempo e conduz o clube por um caminho semelhante, digno da ilustre companhia. Campeões há todos os anos, sem exceção. As exceções, por óbvio, é que são raras como a noite de quarta-feira, quando tudo conspirou para que o Flamengo do futuro fosse exibido em todas as suas virtudes. No futebol não existem garantias e, especialmente no Brasil, o aleatório ainda é uma força a ser respeitada. Mas o aviso para a concorrência parece claro, e provavelmente já é tarde para a maioria.



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