Viveza



Na viagem de oito anos entre a segunda divisão do campeonato argentino e a sétima final continental de sua história, o River Plate ostenta um ressurgimento poucas vezes observado neste patamar de futebol. É uma trajetória de recuperação da camisa e do orgulho que ela representa, construída pelas ideias de um treinador e pelas convicções transmitidas a diferentes grupos de jogadores, pois, nesta região do mundo, times bons duram pouco tempo e precisam ser refeitos praticamente a cada temporada.

As equipes do River Plate dirigidas por Marcelo Gallardo desde 2014 se distinguem por saber quem são, até onde podem ir e pela compostura que as impede de se descaracterizar nas situações de maior exigência. São traços comuns aos times argentinos que alcançam o sucesso, em alguns casos até quando se encontram diante de adversários mais dotados no aspecto técnico. O River que estará na decisão em Santiago evidentemente é distinto, em figuras, dos que o antecederam, mas é composto pela mesma confiança que pavimentou a aparição em três finais de Libertadores nos últimos cinco anos. É difícil superar equipes que exibem esse estágio de amadurecimento.

Pois elas são capazes de exercer papéis não necessariamente elogiáveis sob o ponto de vista do jogo, mas úteis – na falta de um termo mais apropriado – sob o da competição. Foi o que o time de Gallardo conseguiu anteontem na Bombonera, efetivamente comprometendo uma noite de futebol em mais uma edição do superclássico de Buenos Aires, mas garantindo a passagem à decisão e a supremacia recente em encontros com o Boca Juniors, rival supremo. Num encontro decepcionante aos olhos neutros, o Boca fez o que pôde e o River, que pode bem mais, fez menos. Mas o suficiente.

Não é exagero dizer que o atual campeão do torneio sabotou o jogo, justamente por saber que seu adversário tinha pouco a oferecer. Talvez tenha corrido riscos exagerados ao cometer muitas faltas (com colaboração de uma arbitragem brasileira, satisfeita em parar o jogo) próximas à própria área, efeito colateral do plano de retalhar a dinâmica e converter o clássico numa série de ações incompletas. O fato do total de passes da noite não chegar a quatrocentos ilustra uma conversa interrompida frequentemente, por incapacidade do Boca e, com boa vontade, vivacidade do River.

Vivacidade? Sim, no sentido de esperteza utilizada para ludibriar. É a tradução mais precisa para a palavra “viveza”, um componente da vida cotidiana em diversos países sul-americanos onde se fala espanhol. Aplicada ao jogo de futebol – tal qual o lateral cobrado direto na área – não pode ser a virtude primordial de uma equipe, mas é conveniente como recurso para ocasiões específicas, quando um time se faz passar pelo que não é, para seguir sendo o que os demais não conseguem ser.



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