Visita Técnica



Talvez você pense que esses estágios feitos por técnicos brasileiros em clubes europeus sejam meras ferramentas de imagem. Uma foto publicada em rede social ao lado de um treinador consagrado pode ser o resultado de um encontro de cinco minutos, mas passar a impressão da conclusão de uma semana de conversas profundas e observações relevantes. Provavelmente ambos os cenários são reais, pois tudo depende dos níveis de acesso e das intenções envolvidas. Quem deseja investir num período de absorção de conhecimento toma as providências para tanto. Quem quer apenas viajar e aproveitar para fazer uma visita, também. Ao final, o que importa são os efeitos práticos, compatíveis com a dedicação e a capacidade de cada um.

O que parece evidente é que viagens no sentido oposto seriam mais eficientes. As distâncias de condições e percepções de trabalho entre a Série A (principais ligas europeias) e a Série C (campeonato brasileiro) do futebol mundial dificultam demais a aplicação de qualquer aprendizado que se tenha nesse tipo de imersão. É mais ou menos como alguém que trabalha em uma rodoviária ser enviado à Nasa em busca de novas ideias. Ok, há certo exagero no exemplo, mas você captou. Por outro lado, a visita de um funcionário da agência espacial americana a uma rodoviária pode levar a boas sugestões, dentro do que for possível fazer. O problema, claro, é a inviabilidade de trazer um técnico de ponta ao Brasil para um estágio às avessas. Imagine, por exemplo, Carlo Ancelotti passando uma semana no Palmeiras, entre um trabalho e outro, aconselhando a comissão técnica local.

Mas é provável que Jorge Sampaoli e Jorge Jesus estejam fazendo exatamente isso. Como treinadores sem experiência no ambiente do futebol brasileiro, o sucesso que ambos têm experimentado nesta temporada pode servir como um guia de como operar aqui, um conhecimento útil a quem fizer essa mesma viagem nos próximos anos. Colegas de outros países que duraram pouco tempo em clubes do Brasil foram vítimas de diversas circunstâncias – entre elas os próprios equívocos, evidentemente –, mas é inegável que lhes faltou vivência, no sentido prático, por estarem habituados não só a um modo diferente de fazer as coisas, mas a um contexto distinto em relação ao que é oferecido e exigido no país. Quem estiver interessado – Coudet? – fará bem em entrar em contato com os Jorges para entender melhor do que se trata.

A qualidade do jogador brasileiro e a capacidade de investimento dos clubes administrados com competência devem converter o Brasil num centro atraente para técnicos capazes, independentemente do passaporte que portem. A presença desses profissionais só pode acrescentar ao futebol brasileiro em diferentes áreas do jogo, inclusive no estímulo à categoria de treinadores para evoluir num cenário de maior competição. Sampaoli e Jesus se notabilizam pelo impacto imediato nas equipes que dirigem, missão em que outros falharam. O que eles já alcançaram certamente não é uma ferramenta de imagem.



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