Não é patinação



O que o encontro dos dois melhores times do país deixou evidente é que, em jogo, um é bem superior ao outro. O amplo domínio do Flamengo durante um primeiro tempo em que o dono da arena de Porto Alegre “não viu a bola”, nas palavras de seu próprio treinador, surpreendeu quem esperava uma dinâmica de equilíbrio na primeira partida das semifinais da Copa Libertadores. Não houve nada que se aproximasse desse cenário, o que gera surpresa ainda maior, uma vez que o Grêmio não elaborou um plano em que se alimentaria da posse do Flamengo para explorar o espaço. Ao contrário: o time gaúcho quis discutir a bola com o adversário, que simplesmente não permitiu, como se dissesse “com você eu não converso”. É assim que o conjunto de Jorge Jesus costuma tratar seus rivais, quase sempre menos dotados tecnicamente. Não se imaginava que o Grêmio engrossaria a lista.

O volume ofensivo rubro-negro na noite de quarta-feira, especialmente na primeira metade, impõe perguntar como o Flamengo não ganhou o jogo. A depender de quem responder, se notará o tom de oportunidade perdida ou o de sobrevivência mantida, exatamente o balanço sobre o qual a partida de volta se equilibrará. O 1 x 1 possivelmente se explica pela diferença de idade entre as equipes: o Flamengo, embora capaz de encantar sem fazer esforço, ainda carece da rodagem necessária para identificar o odor de sangue e finalizar o embate; o Grêmio, mesmo em noites de dificuldades e perspectiva sombria, se acalma por intermédio da estrutura que o trouxe até aqui e sabe procurar a saída. O gol de Bruno Henrique desestruturaria a enorme maioria dos adversários, justamente por acontecer num trecho do jogo em que o Flamengo sofria. Mas o time de Renato se mostrou imune a essas desconcentrações ao encontrar o empate que o manteve em pé.

O resultado seria desagradável para qualquer mandante, por não vencer e ainda sofrer um gol em seu campo, mesmo considerando as circunstâncias. Ocorre que o Grêmio se diferencia também neste aspecto. A promessa de Renato sobre um comportamento diferente no Rio de Janeiro se baseia em fatos concretos (ver: o confronto com o Palmeiras, na fase anterior) e na sensação – e isso compõe uma parte importante da personalidade de um time – de que sua equipe é mais fiel ao tecido que a fabrica quando precisa dialogar com os percentuais. Após ser controlado e derrotado pelo Palmeiras em casa, o Grêmio mostrou que bons times não fazem jogos ruins em sequência e saiu do Pacaembu classificado. Também haverá campo para correr e jogar no Maracanã, o que, se obviamente não indica qualquer nível de facilidade, ao menos sugere uma nova oportunidade a um time que sabe do que é capaz e em quais condições é mais perigoso.

Num contexto normal, o Flamengo tem maiores possibilidades de ir a Santiago. É melhor time, tem mais placares a seu lado e receberá o estímulo de um ambiente que não é agradável para nenhum oponente. Mas além do prejuízo lógico das lesões de De Arrascaeta e Filipe Luís, será preciso observar como, aos quatro meses de vida, reagirá ao pico de tensão no dia 23. O desentendimento entre Filipe e Arão excedeu levemente a dose tradicional de rusgas entre companheiros dentro de campo e pode significar o que não parece, embora a distância entre os encontros atue para suavizar essas questões. O jogo, neste estágio, é muito mais do que um choque das quantidades de futebol que há dentro de cada time. Se fosse apenas isso, seria patinação artística, como bem disse Jorge Jesus.



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