Hierárquico



Em 2015, no intervalo de um programa de televisão, Juan Carlos Osorio revelou sua surpresa pelo fato de o River Plate ter conquistado a Copa Libertadores da América. “Não é o melhor time do continente”, disse o treinador colombiano, à época trabalhando no São Paulo. Quatro anos depois, a trajetória do clube argentino sob o comando de Marcelo Gallardo impõe uma revisão dessa ideia. Não há na América do Sul outra equipe que ilustre tão bem os benefícios da continuidade e que tenha desenvolvido uma personalidade vencedora como o River. A vitória de anteontem sobre o Boca Juniors encurtou o caminho para o que seria a terceira decisão continental com a direção de Gallardo, a caminho de completar seis anos no posto.

Período que adquire contornos de uma era no futebol desta parte do mundo, tão acostumada a trabalhos interrompidos em questão de meses, e que, para além das conquistas, deu ao River Plate algo que só equipes maduras alcançam: hierarquia. O termo é empregado, neste caso, como um grau de autoridade, uma ordem de grandeza na qual a simples presença fala por si, sem que sejam necessárias explicações detalhadas. Um time que tem hierarquia gera uma certa aflição, algo que que excede o respeito, um incômodo que convence os demais de que é prudente evitar o confronto. O River é assim na relação com seu maior adversário e por causa das vitórias que reverberam no território da Conmebol como indícios de sua posição superior.

O Boca Juniors pode alterar esse cenário se der a volta no 0 x 2 no final do mês, quando receberá a segunda partida em sua Bombonera. Claro que pode. Mas a montanha a ser conquistada parece muito alta para o derrotado na “final do mundo”, em 2018, superado também na noite de terça-feira em todos os aspectos do encontro em Nuñez. Como acontece vez por outra, foi um choque de representantes de tempos distintos do mesmo jogo. O River, cosmopolita e próximo do que se faz de melhor; o Boca, atrasado e agarrado ao aborrecimento dos que não conseguem enxergar o futuro. O resultado poderia ter sido muito mais drástico e não deixaria de retratar precisamente a distância atual não só em desempenho, mas em mentalidade, entre os dois grandes rivais. Gallardo é o líder que os diferencia, com um trabalho que será lembrado como uma das grandes transformações de um clube de futebol na América do Sul, tanto por longevidade quanto por características de jogo e registros de conquistas.

O representante brasileiro na final da Copa Libertadores, Grêmio ou Flamengo (esta coluna foi escrita antes da abertura do confronto em Porto Alegre), será superior ao Boca Juniors sob qualquer análise. Se for este o adversário da decisão em jogo único, as chances de título aumentam consideravelmente. Mas se o curso da semifinal entre argentinos for o normal, o River Plate estará aguardando em Santiago por um oponente que não tem sua descrição: campeão vigente, em busca do terceiro troféu nas últimas cinco temporadas, condição que permite olhar para os outros, todos, de cima para baixo.



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