Incontrolável



A contratação de Fernando Diniz pelo São Paulo expõe as contradições que acompanham o jogo de futebol, enfatizadas pelo modo de fazer as coisas que se impregnou nos clubes brasileiros. Ainda que pareça, não é exatamente uma demonstração de confiança – por parte de quem toma decisões no clube, frise-se – no método de um técnico que ousa apresentar algo distinguível. E embora não sinalize, a princípio, um jeito diferente de pensar, é uma indicação de que dirigentes nem sempre agem sob o autoritarismo dos resultados na hora de escolher um técnico. Ao trazer Diniz no final de setembro, o São Paulo lhe exige vitórias imediatas, algo paradoxal diante do fato de se tratar de um treinador que venceu cinco partidas (duas pelo Athletico, três pelo Fluminense) na Série A do Campeonato Brasileiro em sua carreira.

Foi um grupo de jogadores que, em nome do elenco, fez chegar à diretoria são-paulina que a opção por Diniz agradaria ao vestiário. Fala-se em Daniel Alves, Hernanes, Reinaldo, Pablo e Tiago Volpi, mas eles não foram os únicos a se posicionar favoravelmente à ideia. Como argumentos, há os de quem já trabalhou com Fernando e conhece a maneira como ele opera no dia a dia ou os de quem sabe como jogadores de futebol se desenvolvem sob seu comando. O movimento mais forte, porém, veio de futebolistas que enfrentaram times dirigidos por Diniz e enxergaram características que, a seu ver, deveriam ser perseguidas pelo São Paulo. Em resumo: o domínio do adversário por intermédio da posse e o protagonismo de ações. Como disse um deles a uma pessoa próxima do treinador, “nosso time é muito bom para jogar como vinha jogando”.

Jogadores de futebol têm parâmetros próprios para analisar os “resultados” de um treinador. Não só identificam, mas sentem os distintos sinais de rendimento extraídos de um grupo, com base em crescimento individual e coletivo. Também podem oferecer um ponto de vista muito particular do comportamento de uma equipe em campo, considerando a forma como pretende ser superior aos oponentes e, em última análise, vencer. O placar do jogo, o resultado final, é um objetivo que nem sempre concorda com o que uma equipe produz, distinção que precisa ser feita porque não existe metodologia ou estilo que garanta vitórias. Quem entra em campo e tem ampla noção das dificuldades, por óbvio, consegue separar desempenho e resultado com a clareza necessária. Foi essa leitura, feita pelos jogadores do São Paulo, que levou ao acerto com Diniz. Compreender essa dinâmica é relevante na medida em que há quem julgue conhecer melhor o jogo do que aqueles que o fazem diariamente.

Diniz não foi contratado para ganhar, mas porque jogadores se beneficiam de seus treinamentos e orientações, porque é rigoroso na rotina diária e porque suas equipes se comportam da maneira que as aproxima da vitória. O encontro dessas noções com a qualidade do elenco do São Paulo – de longe o melhor que Diniz já teve – sugere que o que faltou nas experiências anteriores pode ser solucionado agora, embora o risco de uma leitura rasa e apressada esteja sempre presente. Dois empates e o “Diniz não dá certo em time grande” estará instalado, sem que um segundo de reflexão seja dedicado às circunstâncias. Esse é o preço pago por tanta convicção e uma conclusão fácil: não foi por causa de três vitórias no Fluminense que o telefone tocou. Havia algo ali que os jogadores do São Paulo viram e desejaram, algo que o próprio Fernando acredita que é capaz de fazer em pouco tempo. O resultado final não se pode controlar. Ninguém pode.



MaisRecentes

Enquanto isso, na NFL…



Continue Lendo

Visita Técnica



Continue Lendo

Não é patinação



Continue Lendo