Eloquência



Como amostras do trabalho de treinadores, não faz sentido comparar os períodos de Renato Portaluppi no Grêmio e de Jorge Jesus no Flamengo. Renato vai concluir a terceira temporada no cargo, com times reconstruídos a cada ano, desenvolvimento de jogadores e títulos conquistados numa trajetória que reformou radicalmente seu perfil profissional. Jesus, pode-se dizer, ainda se encontra no início de um processo que exibe sinais encantadores e promete um patamar de excelência digno do estabelecimento de uma época no Brasil. A diferença de idade entre as obras – quase três anos contra pouco mais de três meses – torna fútil um “duelo de técnicos” sob qualquer aspecto, especialmente o que se tentar apresentar ao público às portas das semifinais da Copa Libertadores.

Nota-se facilmente a intenção do treinador do Flamengo de valorizar seu trabalho por intermédio de elogios ao futebol no Brasil e suas experiências desde que chegou ao Rio de Janeiro. São afagos ao clube, à torcida, à imagem do Campeonato Brasileiro no exterior e, claro, a seu próprio nome. Como é frequente, a fama de personagens públicos os precede, e as aparições midiáticas de Jesus têm confirmado o que se dizia a respeito dele. São inegáveis seus méritos no futebol expansivo produzido por jogadores que foram convencidos do que aconteceria se se tornassem complementares, sem que precisassem deixar de se expressar conforme suas virtudes. O Flamengo é o time que melhor joga no país em muito tempo, mas não o que joga bem há mais tempo.

Essa equipe é o Grêmio dirigido por Renato, mesmo que sejam times distintos de um ano para outro. E mesmo que, de 2017 para cá, trechos de desempenho ruim tenham ficado claros no que se pode classificar de “Era Portaluppi”. A propósito: o conjunto campeão da América costuma ser mencionado como o ponto mais alto, em jogo, do tempo de Renato no comando. A validação da conquista não se discute, mas o time atual – que está a três partidas de repetir a glória – já mostrou o suficiente para ao menos participar dessa conversa com argumentos bastante respeitáveis. O que conduz a um lamento, talvez por “romantismo excessivo”, pelo fato de não haver registro de um Grêmio dedicado ao Campeonato Brasileiro ao longo dos últimos três anos. Um novo troféu continental daria razão a Portaluppi neste debate, mas não solucionaria o mistério do que se imagina, mas não se vê.

Ambos na televisão e se deve escolher um jogo para acompanhar, hoje? Flamengo. Questão de gosto e das sensações geradas por times de futebol. O encontro entre eles responderá qual é o melhor? Não. São apenas dois jogos, influenciados pelos aspectos estratégicos que caracterizam essas ocasiões. Uma corrida por um título em pontos corridos seria algo tremendo, para ser vivenciado a cada semana e deixar memórias de longa duração. Neste cenário talvez houvesse contexto para o surgimento de uma rivalidade entre técnicos, jogos mentais e até uma ou outra estocada mais venenosa. Por ora, não passa de um embate artificial com tendência à deselegância, como a menção de Renato à idade de Jorge Jesus. O vocabulário é vasto de lado a lado, não há dúvida. Que os times falem em campo.



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