Realidades



Não deve ser confortável a tarefa de entrar numa sala cheia de repórteres e explicar os motivos de um resultado ruim. Especialmente quando não se tem a devida preparação para esses encontros, mais ainda quando se pensa que são obrigações desagradáveis, ao invés de oportunidades para se comunicar com o público. Treinadores de futebol geralmente são divididos em três grupos quando falam em entrevistas coletivas: os que não respondem, os que não erram e os que dariam tudo para não estar ali. Há um pequeno contingente que abraça a ocasião e parece até saborear a interação, mas essa abordagem costuma durar pouco e, claro, depende muito do resultado do jogo. É importante que se entenda que, na enorme maioria dos casos, o sujeito que está ali falando é uma figura completamente diferente da pessoa do treinador no dia a dia. Por vezes, é um personagem desenvolvido para o momento. Noutras, é o máximo que se pode fazer.

Fábio Carille tem sido um entrevistado generoso desde que as salas de coletivas passaram a fazer parte de sua rotina, em 2017. À exceção de um par de demonstrações irritadas, o costume do técnico do Corinthians é ser didático e respeitoso ao explicar suas decisões e comentar o que se deu em campo. Em uma palavra, suas entrevistas são sinceras, até em relação a pontos que colegas preferem omitir para proteger estratégias. Na noite de quarta-feira, porém, os comentários de Carille a respeito da derrota para o Independiente del Valle tomaram um rumo diferente. Em vez de reconhecer a atuação impecável do time de Quito em Itaquera – superior do primeiro ao último minuto não só em jogo, mas em postura -, o treinador corintiano preferiu atribuir a frustração a áreas como a inexperiência de determinados jogadores de sua equipe e, pasme, a esperteza de um time de futebol equatoriano.

Seria fantástico, se não fosse inverossímil. Porque o que se viu no gramado foi uma lição de futebol no aspecto técnico mesmo, do jogo jogado, em que o del Valle pressionou o Corinthians com eficiência e o envolveu com qualidade. E houve mais: num exame de compostura, a impressão foi de que o visitante era o time mais tradicional, mais vivido, mais habituado a esse tipo de encontro. Carille optou por conduzir o pós-jogo ao território da imposição física, provavelmente porque Pedrinho e Mateus Vital, franzinos, foram contidos na maior parte do tempo. Pode ter sido uma tentativa de poupá-los de críticas, mas soou como um flagrante desvio de foco do que, de fato, levou ao 0 x 2: a inferioridade de um Corinthians previsível, prosaico, decifrado e desconstruído por um adversário que não deveria se sentir tão cômodo. É curioso que Carille tenha se manifestado de forma a sugerir que chegou a conclusões diferentes após a mesma autópsia.

Mas ele não esteve sozinho. Na mesma quarta-feira, mais cedo e bem longe de São Paulo, ninguém menos que Zinedine Zidane também ofereceu uma leitura surpreendente da derrota de seu time. O técnico francês acusou a falta de intensidade como causa principal da queda do Real Madrid, demolido pelo Paris Saint-Germain na estreia da Liga dos Campeões. O compêndio de erros defensivos e a inoperância de um meio de campo constituído por Toni Kroos, Casemiro e James Rodriguez – subjugados por Marquinhos, Gueye e Verrati – foram os pecados que levaram ao 3 x 0 no Parque dos Príncipes. Há noites, em Itaquera ou em Paris, em que a realidade é óbvia demais para ser distorcida.



MaisRecentes

Não é patinação



Continue Lendo

Hierárquico



Continue Lendo

Incontrolável



Continue Lendo