Receoso



Ricardo Spinelli, colega de ESPN que mastiga dados numa dieta balanceada, informa que o São Paulo é o único clube da Série A do Campeonato Brasileiro com aproveitamento menor do que 50% nos jogos em casa. O número correto, para não irritá-lo: 48,3%. São seis vitórias, onze empates e três derrotas no Morumbi em 2019, considerando todas as competições. O calendário já passa da metade de setembro, o que conduz a uma leitura razoável sobre a personalidade do time atualmente dirigido por Cuca, com a ressalva de que ele não é o único treinador relacionado a essa campanha. É na posição de mandante, quando precisa estabelecer seu modo de jogar, que os defeitos de uma equipe ficam visíveis.

Cuca começou a trabalhar na última semana do campeonato estadual, jogadores contratados para ser titulares estrearam no mês passado, uma epidemia de lesões parece instalada no vestiário. A temporada são-paulina é um manual de combate ao desenvolvimento de ideias e à continuidade, um ambiente propício para o que aconteceu após o 1 x 1 com o CSA, no domingo passado: uma entrevista do principal jogador do clube, repleta de pequenos focos de incêndio a serem monitorados com atenção nas próximas semanas. Daniel Alves, o jogador que veio para “mudar a cultura” do São Paulo, não demorou a se revelar incomodado com o que encontrou.

Não. O problema não é “a imprensa”. Esse trecho das declarações de Daniel deve ser atribuído à frustração e deixado de lado. Ele sabe que generalizar é um equívoco. Do ponto de vista jornalístico, o que tem valor nas palavras do maior vencedor de títulos na história do jogo são as observações sobre o comportamento do time. No aspecto coletivo: o São Paulo não tem padrão. No individual: ele quer ser utilizado no meio de campo. A última lembrança de identidade data do período de Diego Aguirre, quando o São Paulo sabia ao que jogava – pode-se não gostar, claro, mas esse não é o ponto – e exibia sinais de ter encontrado um caminho que permitia evolução. A preferência por atuar como meia é uma novidade no debate sobre escalação desde que ele e Juanfran chegaram.

Independentemente de nomenclaturas, Daniel Alves é um atacante pelo lado direito do campo, partindo da posição de lateral. Nisso, é muito provável que ele seja o melhor. Utilizá-lo em outro contexto não soa, a princípio, como uma escolha brilhante, a não ser que 1) ele prefira, e 2) o time não seja capaz de fazer as compensações necessárias – como, por exemplo, se dá na seleção brasileira – para maximizar suas virtudes. O argumento sobre “tocar pouco na bola” ao jogar como lateral só se justifica quando a equipe não o aciona suficientemente, cenário que diz mais sobre o time do que sobre Daniel. De qualquer forma, agora se conhece o que ele pensa sobre o assunto, o que cria uma situação com algum nível de incômodo.

Se escalá-lo no meio de campo, Cuca estará “obedecendo” a um de seus jogadores. Se fizer diferente, estará “contrariando” o craque do time. A leitura rasa sempre procura as fendas onde a discórdia se prolifera, caríssimo Dani, algo que só acontecerá porque um tema interno chegou ao outro lado. A solicitação para que Cuca deixe de mexer na estrutura do time vem de carona na mesma entrevista, confirmando o status do São Paulo como um conjunto com mais dúvidas do que convicções sobre si mesmo. Os números coletados por Spinelli descrevem uma equipe que não consegue se impor na hora em que a maioria dos adversários lhe exige que faça exatamente isso: quando seu torcedor está perto, esperando, e, por ora, reclamando.



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