Benjamin



O montenegrino Nikola Vucevic, pivô do Orlando Magic da NBA, não resistiu ao elogio máximo possível ao ver a Argentina derrotar a França e se classificar para a final do Campeonato Mundial de basquete. Vucevic sacou o telefone do bolso e escreveu para o mundo em seu perfil no Twitter: “Quando eu crescer, quero ser Luis Scola”. Embora já esteja maduro aos vinte e oito anos, Vucevic é uma década mais novo do que o jogador que enxerga como o homem que gostaria de ser. Esse é o nível de admiração gerado por um atleta capaz de, quase aos quarenta, levar sua seleção nacional a uma decisão mundial com números melhores do que quando vivia seu auge físico e técnico.

No Campeonato Mundial de 2006, realizado no Japão, Scola jogou menos tempo, fez menos pontos, pegou menos rebotes e deu menos assistências do que no torneio que termina amanhã em Pequim, na China. Ele tinha vinte e seis anos, dentro da faixa etária apontada como a maturidade de um esportista. Tal e qual Benjamin Button, a criação de David Fincher que rejuvenesce à medida que o tempo passa, Scola descobriu um jeito de inverter os efeitos do tempo e tem produzido atuações individuais espantosas no torneio chinês, liderando uma seleção argentina que provoca afeição quase obsessiva em quem aprecia esportes coletivos. A coesão, o senso de pertencimento, a entrega inegociável… qualidades que por um momento dispensam o requinte técnico – que também se nota, evidentemente – e exibem o que deveria ser o ideal de todos os times.

Ver essa Argentina jogar, mesmo pela manhã, causa vontade de comer ojo de bife e tomar uma taça de malbec. A narrativa da rivalidade entre vizinhos insiste em vender um ambiente de competição acirrada em toda e qualquer modalidade, mas, no basquete, é preciso aceitar uma unilateralidade semelhante ao que se dá entre alemães e ingleses no futebol. É intrigante imaginar o que dirigentes do basquete brasileiro, de hoje e de ontem, pensam ao acompanhar a seleção argentina vencendo quinze anos depois do ápice da chamada “geração de ouro”. Scola é o último remanescente do time campeão olímpico em Atenas, e mesmo assim as lições continuam, o espírito permanece, o exemplo constrange. Um sujeito de trinta e nove anos joga como se pertencesse à geração anterior, e seus companheiros dessa geração jogam como se estar ao lado dele fosse mais importante do que vencer. E eles vencem, claro, mesmo que sejam derrotados pela Espanha na final.

Porque é o que Scola faz desde garoto, quando seu nome começou a circular como promessa de jogador de época. Há quase vinte anos, ele veio ao interior de São Paulo com a seleção sub-21 de seu país para disputar um torneio classificatório para o mundial da categoria. Foi Scola quem levantou o troféu após a final contra os Estados Unidos (com meia dúzia de futuros jogadores da NBA no time) no antigo ginásio do COC, em Ribeirão Preto, com a naturalidade de quem sabia que a vida seria repleta de ocasiões como aquela. Se alguém que nasceu em Montenegro quer ser como ele, imagine o que acontece na Argentina, orgulhosa de um time de basquete encantador, liderado por um gigante que se recusa a envelhecer.



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