A escolha que não há



Já está em andamento um processo perverso, mais um, relacionado ao futebol no Brasil. A segunda eliminação seguida na Copa Libertadores deu origem ao julgamento do trabalho de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras sob o prisma da maneira de jogar. Nos corredores do clube, nas mensagens instantâneas e em setores da coletividade palmeirense em que só havia interesse por vitórias até a noite de anteontem, agora borbulham “análises” repentinas sobre aproveitamento do elenco, ideia de jogo e demais temas anteriormente percebidos com desdém por se tratarem de “conversa de poetas”. Adeptos da “bola na casinha” e do “quem quer espetáculo que vá ao teatro” descobriram termos como “repertório” e dissertam a respeito de “futebol coletivo”. Que maravilha.

Se essa comovente transformação estivesse em curso apenas em redes antissociais como o Twitter, onde se dá o equivalente atual ao que sempre se chamou de “o que se diz nas ruas…”, ok. Compreende-se o componente passional e o hábito de repetir o que se ouve/lê em algum lugar e faz cabeças de ovos parecerem articulados. Mas não; a reversão total pode ser acompanhada em espaços da crônica especializada em que o resultado sempre foi apresentado como a solução suprema para tudo, o remédio universal para males que não surgiram no Pacaembu ou na Bombonera. Não fosse um desrespeito ao próprio futebol, o que é mais importante, já seria uma afronta à memória das pessoas bombardeadas diariamente pelo discurso cínico que pretende tratar do jogo sem considerá-lo.

Não é uma questão de preferência, mas de critério. Ao justificar a escolha por um certo tipo de jogo por intermédio dos resultados que ele – supostamente – proporciona, fabrica-se a mentira de que outras opções distanciam times de futebol do que é, por óbvio, o objetivo de todos. Mas essa ainda não é a maior crueldade, porque o conjunto de análises também revela uma decisão tomada no momento da apreciação das diversas formas de jogar que o futebol oferece. Enquanto o jogo mais elaborado e primordialmente ofensivo vive sob uma régua de altíssima exigência, as propostas baseadas em solidez defensiva e punição ao erro do oponente recebem generosas doses de paciência. Até que, um dia, quando se perde algo importante, alguém resolve não mais tolerá-las e subitamente olha para o outro lado, como se estivesse dizendo: “eu escolhi ganhar, mas, agora que perdi, escolho jogar”. Nonsense total.

Se o Palmeiras tivesse conseguido converter seus melhores vinte e cinco minutos pós-Copa América – exatamente o trecho inicial do jogo em que o Grêmio fez dois gols – em um placar favorável, ou se Everton não produzisse uma noite de tamanho desequilíbrio, é possível que o resultado estivesse novamente sob exaltação a esta altura. E não haveria nada de diferente na maneira de jogar ou no contexto geral de virtudes e defeitos do time de Scolari. É preciso decidir o que se pretende e que não seja o oportunismo, pecado imperdoável não só no futebol.



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