Barreira



A contratação de uma treinadora sueca para comandar a seleção brasileira feminina de futebol é um acerto que tem vários significados. Um deles, talvez o mais evidente, é técnico. Pia Sundhage ostenta a trajetória e os atributos necessários para a posição, além de representar, ao que parece, um movimento no sentido de um tratamento profissional a uma equipe enxergada como um acessório, quase como um incômodo. Não bastará trazê-la e prometer um projeto ambicioso que não sairá da conversa, é claro, mas a forma como a notícia foi recebida por vozes que se empenham há muito tempo por um avanço indica que se trata de um começo inspirador.

Numa entrevista ao voltar para casa com a Copa do Mundo disputada na França, Alex Morgan, atacante da seleção americana, desnudou o pensamento prevalente, de modo geral, quando se cogita investir no futebol praticado por mulheres. É algo baseado no esforço mínimo, um tipo de maquiagem que custe pouco e gere um retorno de imagem positivo. Em outras palavras, um apoio cínico, mesmo num país em que o envolvimento feminino com o jogo de futebol é massivo. No Brasil, por diversas razões, o cenário é lúgubre, a ponto da própria Morgan mencionar a seleção brasileira como uma equipe que poderia alcançar muito mais se contasse com suporte real. Não se pode esquecer, porém, que o jogo feminino brasileiro precisa de estímulo e condições para se estruturar, um trabalho que está distante do dia a dia da seleção e que não será feito com a simples nomeação de uma treinadora de alto perfil.

Um outro significado do anúncio de Sundhage é a quebra de uma barreira que está mais relacionada à seleção masculina, mas não tem menor relevância por isso. O uniforme das mulheres é feito com as mesmas cores e exibe as mesmas estrelas conquistadas pelos homens, representação de uma nação futebolística que naturalmente tem suas idiossincrasias e vícios de comportamento. Não há motivos para censurar a opção por uma profissional nascida em outro país para comandar a seleção, a das mulheres ou a dos homens, desde que a escolha faça sentido e seja parte de um projeto bem fundamentado. A hora para o time feminino chegou, talvez até com certo atraso. No masculino, Tite é a pessoa certa no momento adequado, o que não significa que, no futuro, oportunidades como a que se ofereceu após a Copa de 2014 não devam ser contempladas.

Foi após o Mundial no Brasil que a chance se apresentou para José Maria Del Nero – ou Marco Polo Marin, como o leitor preferir – , quando todas as circunstâncias propícias a uma mudança de rumo se reuniram no luto do 1 x 10 (não esqueça da Holanda). Havia um plano de quatro anos a ser confeccionado e uma busca criteriosa a fazer, sem atropelos, para encontrar o treinador ideal para liderá-lo. Os presidentes da CBF não foram capazes de detectar a sensibilidade da ocasião e chamaram Dunga depois de quinze dias. Banidos do esporte por corrupção, embora apenas um tenha sido devidamente processado, condenado e encarcerado, Del Nero e Marin também pagam pelo crime da incompetência e das práticas retrógradas que caracterizam o cartola médio do futebol nacional.

Que Pia Sundhage possa se “naturalizar” brasileira no aspecto futebolístico, mergulhar na realidade de seus antecessores, na cultura que molda jogadoras no país e colaborar para o início de uma pequena revolução. E que, se um dia, a seleção masculina procurar um técnico que não nasceu aqui, esse mesmo processo também seja percorrido, ao invés de um simples comando remoto que não levará a um casamento harmonioso e nem aos frutos desejados.



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