Dinheiro e gols



As eliminações de Flamengo e Palmeiras da Copa do Brasil acionaram as reações neuróticas que caracterizam o modo atual de viver o futebol. Jogadores que cometeram o hediondo crime de desperdiçar um pênalti foram, e serão, perseguidos por fanáticos irresponsáveis que se julgam no direito de ameaçar familiares, como se deu com parentes do – em breve ex? – palmeirense Moisés. Entre simpatizantes dos dois clubes financeiramente mais saudáveis do país, a queda nas quartas de final do torneio foi percebida como um tipo de vexame, pois, afinal, quem tem dinheiro está condenado a vencer. E entre neutros, o que é pior, prevaleceu um certo revanchismo de mídia antissocial pelo fato desses clubes serem apontados como favoritos não só à competição em questão, mas também a todas as outras.

É intrigante o funcionamento da mente de quem não compreende as probabilidades de sucesso de Flamengo e Palmeiras nesta e nas próximas temporadas. O nível de desconexão da realidade só é maior no caso de  quem, parafraseando Johan Cruyff, acha que sacos de dinheiro fazem gols. Mas nada é mais cômico do que o sujeito que ouve/lê sobre o favoritismo de um time e conclui, sabe-se lá como, que tal equipe jamais deixará de ganhar um jogo. Mesmo que diante do Flamengo esteja um clube modelo em tantos aspectos como o Athletico. E que diante do Palmeiras, em sua casa, esteja o Internacional. Ou, ainda, que sejam confrontos eliminatórios num torneio cujo caráter equilibra forças e impõe uma dose de imprevisibilidade ainda mais potente.

Algo que pouco se comenta: as condições econômicas que permitem a Flamengo e Palmeiras montarem elencos fartos, com maior número de bons jogadores do que a concorrência, são um diferencial num contexto mais amplo de temporada. Essas equipes estão em vantagem teórica para enfrentar um calendário opressor, lidar com perdas de jogadores, manejar competições simultâneas, e, ao longo de um ano, se aproximarem de seus objetivos. Mas numa noite específica, contra oponentes de qualidade semelhante, ter mais orçamento significa pouco. Essa paridade se verifica especialmente nas copas, em que as estratégias e os encaixes entre maneiras de atuar convertem cada jogo – mais correto seria dizer cada tempo de cada jogo – em convites ao aleatório.

Considerando apenas a fase em que caíram, é natural que a perda de uma oportunidade de conquistar um troféu provoque frustração. Mas o sorteio criou cruzamentos precoces que poderiam tranquilamente decidir a Copa do Brasil. Sem falar que não é este torneio – aqui a análise é mais endereçada ao Flamengo, menos vencedor do que o Palmeiras nos anos recentes – que trará satisfação suprema a qualquer um deles. Para cada clube que trata a Copa do Brasil como objeto de desejo e consegue vencê-la, há vários outros que fizeram a mesma aposta e ficaram pelo caminho. O planejamento de clubes que se imaginam dominantes não pode ser esse, assim como não pode ser ganhar tudo. Não no Brasil.

O que não significa que a derrota deva ser recebida com sorrisos ou que questionamentos não devam ser feitos. A pressão nas outras frentes naturalmente aumentará. Já passa da hora, porém, de corrigir as distorções que levam clubes a “preferir” ganhar a Copa do Brasil a tornarem-se campeões brasileiros, esta, sim, uma conquista que eleva equipes a um patamar especial. O Campeonato Brasileiro está ao alcance de Palmeiras e Flamengo, mais ainda por premiar aqueles que são capazes de se manter em alto nível por mais tempo. O vigor econômico os coloca em posição privilegiada, embora Cruyff esteja certo sobre o dinheiro e os gols.



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