Microanálise



Tiago Volpi levou um gol que é um acidente de trabalho. E um acidente raro. O chute que ele estava posicionado para defender não apenas desviou e percorreu uma rota inimaginável, como, ao cair, encontrou uma fresta rente ao travessão, bateu na trave, em seu corpo e entrou. Lances dessa natureza acontecem de vez em quando, e todo goleiro tem alguma história para contar sobre essas conspirações de falta de sorte. Assim são tratadas essas ocorrências, porém. Como eventos bizarros, cicatrizes de batalhas.

Ocorre que Volpi veste um uniforme que vem acompanhado de um nome, um rosto e uma história com os quais ele não tem como competir. Nem se quisesse. É como se Rogério Ceni estivesse por dentro do fardamento em todos os lances que merecem aplauso, e Volpi, assim como os que vieram antes dele e depois de Ceni, só assumissem a posição nas falhas que o ídolo não cometia – embora cometesse, como qualquer goleiro – , nos gols que não deveriam acontecer, nas ocasiões em que parece que uma solução para a camisa 1 do São Paulo jamais será encontrada.

Volpi tem sido objeto de um nível exagerado de microanálise. A cada gol que o São Paulo sofre, a figura de Ceni é sobreposta na imagem de modo a que se notem as diferenças nos movimentos, nas reações, nas decisões tomadas num piscar de olhos. O ídolo não acertava sempre, mas, enquanto for assim, Volpi não acertará nunca. Se a comparação pura e simples já é prejudicial, enfrentar a noção de que “ninguém é goleiro para o São Paulo até que prove o contrário” é uma sentença de reprovação permanente, agravada pela falta de títulos, pelo rodízio de técnicos, pela instabilidade que caracteriza o clube nos últimos anos, ambiente que permite que um treinador seja criticado publicamente pelo diretor de infraestrutura do estádio.

Isso não quer dizer que as opiniões técnicas sobre o gol do Palmeiras no clássico do fim de semana passado estejam equivocadas. Zetti, por exemplo, detectou que Volpi tentou alcançar a bola com o “braço errado”. Mas o desvio e a trajetória incomum precisam ser considerados para absolvê-lo. Seria completamente diferente se Dudu tivesse anotado outro gol por cobertura – intencional – contra o São Paulo, claro. Com o máximo respeito, é provável que Zetti, mesmo em seus melhores dias, levasse esse gol. Ceni também.



MaisRecentes

Não é patinação



Continue Lendo

Hierárquico



Continue Lendo

Incontrolável



Continue Lendo