Impossível



Garry Kasparov, provavelmente o maior enxadrista de todos os tempos, certa vez foi questionado se seria capaz de vencer o melhor jogador da atualidade, o campeão mundial Magnus Carlsen. A resposta foi enigmática – o diálogo, durante um jantar em Nova York, está no primeiro capítulo do livro “Guardiola Confidencial” – como são as questões complexas do esporte e da vida: “Eu seria capaz. Mas é impossível”. A explicação está na quantidade de energia cerebral que uma partida de cinco, seis horas, exigiria de Kasparov para derrotar um oponente 28 anos mais novo.

É possível que Roger Federer saiba exatamente do que Kasparov fala, após ser derrotado na final mais longa da história de Wimbledon por Novak Djokovic. Após vencer mais games, mais pontos no total, mais pontos na rede, mais pontos sacando, mais pontos retornando saque, mais break-points, fazer mais winners. E perder. Após quebrar o saque de Djokovic tarde no quinto set, abrir 40/15 e ter dois pontos para o troféu. E perder. Após, mais uma vez, se estabelecer como o favorito absoluto na vontade do público na quadra, na televisão, daqueles que gostam de tênis, dos que jamais viram um jogo, dos que acompanharam as quatro horas e cinquenta e sete minutos de tensão e dos que não a suportaram.

E perder.

A admiração por Federer se converteu em um fenômeno cultural mundial. Faz muito tempo que não se trata apenas de tênis ou mesmo de esporte. É tema obrigatório de conversação, no aspecto social. Nesta segunda-feira, na hora do almoço, pessoas que não viram um segundo do jogo dirão que ficaram grudadas à tela da TV, suando por boa parte do dia, torcendo por Federer. E como a derrota deixou o domingo mais triste. Ser contemporâneo de Federer é como poder ver um mestre de seu ofício, um gênio em ação, um ícone de nossa espécie. Seu rosto deveria estar ao lado do verbete “tênis” nos dicionários de todos os idiomas.

Novak Djokovic não apenas quebrou o mundo tenístico neste domingo. Ele mostrou que seu cérebro é composto de algo diferente, pois só isso explica a capacidade de processar a noção de que praticamente todas as pessoas desejavam seu fracasso, e retirar dessa noção a energia necessária para sorrir sozinho diante de milhões de sorrisos amarelos. Esse nível de fortaleza mental está próximo da crueldade, um recurso próprio de alguém que se convenceu de que ser um estraga-prazeres planetário é seu caminho para a grandeza, sua garantia de respeito absoluto numa era em que é automático amar Federer e/ou Rafael Nadal. Com Djokovic, ou se tem uma relação de simpatia instantânea ou se aprende a aceitá-lo por ser tão bom. É assim.

Há quem diga que ele se ressente. Nick Kyrgios afirmou que Novak “se esforça demais para ser Roger”, como alguém que daria tudo o que tem para ser digno do amor universalmente endereçado ao suíço. Talvez. Mas é preciso considerar a hipótese de ser exatamente o contrário: Djokovic encontra satisfação em tardes como a deste domingo, quando enganou a todos naqueles dois pontos em que tweets estavam prontos e manchetes já eram escritas. Ele não dedica a mínima importância para uma batalha impossível, a que se dá fora da quadra e dentro dos corações. Porque ali, onde a vontade alheia não importa, ele pode vencer.

Como venceu.

Você torceu para Federer porque, aos 37 anos, ele ainda joga com classe incomparável e personifica um patamar de excelência tão raro que deveria ser eterno. E como nada o é, você quer que ele olhe para o pôr do sol com um último troféu nas mãos, tendo derrotado os dois maiores rivais, num quadro perfeito como seu jogo. Você deseja essa felicidade a ele porque é seu desejo de felicidade, e, ao final, o sabor é ruim. Mas a tênue linha entre vitória e derrota embaralha as coisas num jogo como esse. Federer sacou para o campeonato. Duas vezes. Se lhe oferecessem esse cenário antes de tudo começar, ele assinaria em uma fração de segundo.

Se não aconteceu, como disse Kasparov, é porque é impossível.



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