Internas



É interessante que dois elogios ao técnico da seleção brasileira não tenham passado de meros registros, especialmente no ambiente de absoluta neurose em que se converteu o debate futebolístico nos meios de comunicação. Até mesmo a irresistível força do negativismo e da predileção pela crítica pessoal poderia abrir exceções ocasionais, porque há manifestações que merecem o devido destaque. No caso em questão, as palavras dedicadas a Tite por dois de seus jogadores mais experientes precisam ser grifadas tanto no aspecto do teor quanto no da autoria, pois a desvalorização daquilo que vem diretamente de dentro do futebol é um exercício de desconhecimento e arrogância, talvez a combinação mais danosa que se possa encontrar.

Daniel Alves mencionou um aspecto do trabalho de treinadores que, embora seja considerado crucial, mantém-se relativamente distante da opinião pública. A administração de pessoas não pode ser verificada em detalhes quando um time de futebol se apresenta, e geralmente só se ouve falar de “vestiário” quando as coisas andam mal. O que disse o futebolista mais vitorioso da história do jogo, em entrevista ao SporTV, após a conquista da Copa América: “Ele é um dos melhores do mundo em gestão de equipe. Nem o Guardiola é igual ao Tite como gestor de equipe”. Filipe Luís já tinha feito uma observação neste sentido antes do torneio, em entrevista coletiva, ao revelar que pretende seguir uma segunda carreira como técnico: “… outra coisa que também preciso é aprender a gerenciar um grupo, como Tite faz. Ele é maravilhoso nisso”.

Ok, você pode ter reservas quanto à personalidade e às opiniões de Daniel Alves sobre temas que extrapolam o futebol. Mas o assunto aqui é sua experiência no dia a dia com treinadores, em quase duas décadas de convivência com nomes e métodos diferentes em clubes e na seleção brasileira. Filipe Luís é menos vocal, mas não menos vivido. É difícil encontrar um profissional do futebol com melhor reputação. Combinando as trajetórias de ambos, estamos tratando de Guardiola, Mourinho, Simeone, Scolari, Tuchel, Allegri, Dunga… ideias, estilos e métodos distintos. O fato de Daniel e Filipe fazerem questão de salientar a habilidade de Tite no funcionamento interno da seleção é uma oferta generosa de informações para quem imagina como é a relação de jogadores internacionais, habituados ao trabalho com treinadores renomados na primeira divisão do futebol mundial, com o técnico brasileiro.

A propósito, é preciso recordar outro trecho do encontro de Filipe Luís com os repórteres, no final de maio, ao responder sobre as características do trabalho de Tite na preparação do time: “ele seria o meu espelho se, no futuro, eu fosse técnico. Temos as mesmas ideias de jogo. Porque não é fácil. Tive muitos técnicos na Europa que a gente não compartilha as ideias dentro do campo, nem táticas e nem de treinamentos… esse seria o sistema que eu mais gostaria de aprender se eu fosse técnico”. Aqui, uma observação mais direta, e não menos elogiosa, sobre o modo de fazer as coisas no campo de treinamentos, importante para a avaliação das abordagens no aspecto técnico.

Como todos os treinadores, Tite está à mercê dos resultados, das escolhas que faz e das diferentes leituras sobre a maneira como seu time atua. No contexto mais amplo a respeito de sua imagem e de seu desempenho, opiniões, distanciadas ou não, devem considerar os depoimentos de quem conhece um lado de seu trabalho restrito a poucas pessoas, exatamente aquelas mais afetadas por suas decisões. É uma simples questão de justiça.



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