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Espera-se que Tite aborde o assunto de sua permanência na seleção brasileira no fim da tarde, quando sentar-se ao lado de Daniel Alves para a entrevista coletiva prévia à final da Copa América. Ele certamente será questionado sobre o tema, mas pode optar por responder sem, de fato, fazê-lo. É seu direito, assim como deixar a CBF no momento em que considerar conveniente, pelas razões que lhe forem importantes, profissionais ou pessoais. Tite é criticado até hoje por ter recebido um beijo do Marco Polo que não viaja quando poderia deixá-lo no vácuo, e, assim, “salvar o futebol brasileiro” sacrificando a própria carreira. Como se o caboclo, qualquer um, que herdasse a cadeira – ei-lo, mantendo tudo como sempre foi, mas arrotando “compliance” – estivesse interessado em algum tipo de avanço.

Seja qual for a decisão de Tite, especialmente no caso de um desastre no Maracanã, haverá quem não o compreenda e o acuse. Serão aqueles que enxergam, por exemplo, o fato pouco usual de alguém poder escolher seu superior como um sinal de conluio, não como uma medida de proteção. Aqueles que optam por não perceber, embora não seja necessário grande esforço neuronal, que se um treinador de futebol no Brasil tem a oportunidade de blindar sua equipe de trabalho de interferências de dirigentes, não pode deixar de aproveitá-la. É disso que se trata, ao final, com sensibilidade ainda maior quando se fala de uma entidade cujos dois presidentes anteriores foram banidos do futebol por corrupção (um está preso nos Estados Unidos) e o que reinou antes deles renunciou para evitar o constrangimento.

Se Tite está em dúvida e só definirá sua posição a partir de segunda-feira, qual seria o efeito de um título amanhã no Maracanã? Mais cacife para negociar a substituição das pessoas de sua confiança ou a ocasião perfeita para sair? O segundo cenário significa abdicar de mais uma Copa do Mundo e da chance de melhorar as memórias de Kazan. O primeiro, garantir que o caminho até o Qatar será percorrido nas condições que ele entende como corretas. Retornando ao que é direito, a CBF pode perfeitamente desejar mudanças na comissão técnica da seleção brasileira, mas deve compreender a hipótese de os envolvidos não aceitarem. Aí reside uma das perguntas mais importantes dessa história: a confederação pretende solucionar as insatisfações de Tite para mantê-lo até 2022 ou é exatamente quem as alimenta? Se for, o desfecho está claro.

A nota divulgada na quinta-feira não diz nada que seja novidade, apenas repete o suporte dado ao técnico depois do Mundial da Rússia. Pode ser lida como “queremos que Tite permaneça” e também como “se ele sair, será porque quis”, o que é completamente diferente. A CBF que divulga a intenção de seguir com o técnico até a próxima Copa do Mundo é a mesma que garantiu que não haveria conflito entre as datas Fifa e o calendário brasileiro em 2020, conversa que enganou pouca gente por pouco tempo e mostrou, como se ainda fosse necessário, que as coisas nos gabinetes da Barra da Tijuca são feitas como sempre foram.

As pessoas mais próximas a Tite dizem que, há tempos, a Copa América domina seus pensamentos e conversas. Agora falta o jogo que pode lhe dar o troféu, e, talvez, algo mais valioso, como ele mesmo declarou depois de vencer a Argentina: a sensação, após três anos de trabalho, de finalmente ser técnico da seleção brasileira, por dirigir o time em uma partida realizada no Maracanã. É paradoxal, para dizer o mínimo, que essa sensação possa durar tão pouco.



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