Erro de sistema



No capítulo de “A Pirâmide Invertida” – obra que conta a história da tática no futebol – que trata da seleção brasileira de 1982, o autor Jonathan Wilson reflete sobre os efeitos da tarde em que a Itália eliminou o Brasil da Copa do Mundo: “De fato, aquele foi o dia em que uma certa ingenuidade no futebol morreu; depois dele, deixou de ser possível simplesmente escolher os melhores jogadores e permitir que eles atuassem como quisessem; foi o dia em que o sistema venceu. Ainda havia lugar para grandes talentos ofensivos individuais, mas eles deveriam estar incorporados a uma organização que os protegesse e os compensasse”.

Desde então, exatamente como se deu nas décadas anteriores, o jogo de futebol passou por distintas eras e movimentos quase que cíclicos nos quais ideias e estilos entraram e saíram de moda. O que permaneceu foi o sistema, nada mais do que uma definição organizada sobre como se pretende jogar. Os treinadores mais bem sucedidos, cada um a seu modo mesmo nos casos em que compartilham conceitos e intenções, sempre foram identificados pelas visões representadas por suas equipes, como dialetos que compõem versões particulares de um mesmo idioma. Na elite da elite, o sistema é o passaporte biológico de um time, e, por lógica, de seu técnico.

O que está acontecendo com a seleção brasileira, hoje, é um problema de sistema. Um problema de funcionamento e, provavelmente, de escolha. Diante da impossibilidade de recuperar a maneira de jogar que caracterizou o time entre setembro de 2016 e a última rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia, Tite decidiu substituir os mecanismos ofensivos da seleção – desde a saída da defesa, passando pela construção e a definição de movimentos – por um modelo baseado em posições no campo. Para não entrar em um debate conceitual que não cabe aqui, a principal diferença é que, antes, os jogadores tinham liberdade para se associar independentemente das regiões do gramado (ver: o terceiro gol contra o Paraguai, marcado por Marcelo, na última rodada das Eliminatórias). Agora, obedecem a uma estrutura rígida que respeita localizações fixas, algo perfeitamente visualizável quando o Brasil se estabelece no campo do adversário.

Isso não significa que a seleção brasileira pratique “jogo de posição” (que o autor espanhol Martí Perarnau prefere chamar, em seu livro “Pep Guardiola – A Evolução”, de “jogo de localização”), um tipo de organização criado pela escola holandesa/catalã. O que o Brasil de Tite tenta fazer, como o próprio treinador já declarou em entrevistas mais detalhadas em aspectos táticos, é o que se chama de “ataque posicional”. Em teoria, é apenas uma opção entre tantas. Na prática, simplesmente não está funcionando. Talvez pelas dificuldades que o trabalho em seleções apresenta, talvez por ser uma proposta que necessita de mais tempo para amadurecer, talvez porque os jogadores convocados não se sentem à vontade.

A crítica sobre falta de ordem é míope. O problema é o contrário. Tite está tentando vencer pelo sistema, o que resulta em um time excessivamente organizado no ataque, sem ímpeto, sem transgressão, sem rebeldia. O único trecho do jogo de anteontem em que se percebeu o envolvimento do público foi a parte final, na qual, com um jogador a mais, a seleção acionou o modo pressão total e promoveu um cerco à área do Paraguai. No restante, que também vale para os outros encontros, exceto o do Peru, o Brasil foi uma equipe que gerou muito volume e poucas ocasiões, balanço certamente insuficiente para ganhar a Copa América. Não é possível resgatar a ideia das Eliminatórias como passaporte da equipe atual, mas oferecer aos jogadores mais autonomia na elaboração ofensiva pode ser um caminho. Ao final, o triunfo seguirá sendo do sistema.



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