Sensações



“Em 1994, nós jogávamos ao meio-dia com trinta e cinco graus. E o Brasil tinha a bola. Dez anos mais tarde, jogando com dez graus a menos, o Barcelona era um espetáculo porque tinha a bola. A mesma coisa, só que um jogava a vinte e cinco graus e o outro a trinta e cinco”. As aspas são de Dunga, em entrevista ao diário espanhol El País.

A seleção brasileira campeã do mundo nos Estados Unidos deveria ser lembrada, especialmente em seu próprio país, de maneira mais calorosa. Era um time formado por jogadores de altíssimo nível, tinha identidade coletiva e brilho individual. É possível que a última imagem, a de um título conquistado nos pênaltis – após um jogo que mereceu vencer – tenha gerado a impressão discreta que caracteriza muitas opiniões. Ou que a maneira como o time atuava – defesa sólida, controle pela posse e altas doses de paciência para acionar a dupla de atacantes – provoque lembranças preguiçosas a quem cobra encantamento permanente.

As temperaturas e os horários dos jogos daquele Mundial seguramente têm relação com o futebol apresentado, e, nesse contexto, o time dirigido por Carlos Alberto Parreira também merece o elogio por saber se adaptar às circunstâncias. O técnico do tetra costuma declarar que “não seria possível ganhar a Copa de outra maneira” (referindo-se principalmente à pressão por um troféu que iludia o Brasil havia vinte e quatro anos, o que exigia um time sóbrio), um argumento mais do que respeitável, embora a escolha sobre como jogar evidentemente tenha levado em conta, sobretudo, as características dos futebolistas escolhidos. Contudo, Dunga se equivoca com preocupante gravidade no raciocínio em que menciona o Barcelona.

Supõe-se que ele tenha se referido, por falar em “ter a bola”, ao time construído por Pep Guardiola em 2008/09, quatorze anos, e não dez, após a Copa de 1994. Um lapso de memória quase insignificante diante da última frase, que se inicia com “a mesma coisa” e termina por sugerir que as condições climáticas tornam a comparação favorável àquela seleção brasileira. Não. Em jogo, está muito longe de ser a mesma coisa. E faz pouco sentido relacionar sete partidas a ao menos três temporadas inteiras. Mesmo porque a diferença entre essas equipes está nas sensações que deixaram para o mundo do futebol. Fosse apenas uma questão de graus celsius, o Brasil do tetra seria considerado universalmente um dos grandes times da história.



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