Gênese



Foi exatamente após um Brasil x Peru, há pouco mais de três anos, que começou o período de Tite como técnico da seleção brasileira. O time dirigido por Dunga foi derrotado por um gol de mão de Raúl Ruidíaz, no estádio do New England Patriots, e saiu da Copa América do centenário num jogo em que fez um bom primeiro tempo e um péssimo segundo. Dois dias depois, o Marco Polo que não viaja demitiu a comissão técnica. Seis jogadores brasileiros que estavam em campo naquela noite em Boston fazem parte do elenco atual da seleção. Ruidíaz também estará logo mais em Itaquera, e só não poderá repetir o estrago feito em 2016, ao menos não do mesmo jeito, porque o árbitro de vídeo não permitirá. A conversão da Copa América em um evento sem brilho, um absurdo desperdício,não anula o interesse por um reencontro que pode ser decisivo para Tite, já que a etapa pós-Mundial de seu trabalho precisa, de fato, começar.

É possível que observadores mais atentos tenham registrado na memória o brilhantismo do diretor da transmissão daquele jogo pela televisão. Foi ele quem segurou a repetição do lance do gol por longos minutos, enquanto a equipe de arbitragem conversava sobre o que fazer e esperava que o replay a resgatasse. Pouca gente se lembrará que o Brasil trocou 256 passes, teve 65% de posse e 5 x 0 em finalizações na primeira parte, com duas ocasiões claras para ficar em vantagem. Na volta do intervalo, Cueva e Guerrero carregaram o time peruano e o Brasil esmoreceu. O gol irregular significou a eliminação num grupo que também tinha Equador e Haiti, fim da linha para um treinador que havia retornado ao cargo duas semanas após o epitáfio do Mineirão, encarregado pela administração Marin/Del Nero de recuperar a identificação dos jogadores com a camisa da seleção.

Com Tite, e não seria diferente em qualquer caso, a derrota para a Bélgica abriu a temporada de ataques à sua superexposição, seu jeito de falar, a composição de sua comissão técnica e a gestão das relações da seleção com as empresas Neymar. As deficiências do time após a Rússia, embora evidentes, passam ao largo do debate e evidenciam a maneira como se trata futebol no Brasil: quem vence não tem defeitos. O jogo deste sábado impõe a afirmação de um caminho com atuação convincente e resultado de acordo. Para incrementar a atração, o adversário é o conjunto mais perigoso de um grupo considerado tecnicamente inofensivo para a seleção brasileira, mesmo que a distância entre as pretensões de Tite e a produção dos jogadores seja notável. Incomoda, ao público menos interessado em como as coisas acontecem, que este Brasil anfitrião do torneio seja um time brando. As sensações dominam análises que ignoram, como é frequente, que se trata de um problema futebolístico.

É evidente que a melhor configuração de meio de campo e ataque ainda não foi encontrada. Tite está convicto de que um time como a seleção brasileira tem obrigação de construir vitórias por intermédio de bom futebol, o que ele traduz por controle do jogo pela posse e volume ofensivo como resultado da circulação da bola. Em duas rodadas de Copa América, seu time tem sido capaz de chegar aos arredores da área adversária com organização e qualidade. O problema se apresenta na hora de concluir movimentos, a parte mais difícil – e importante – da missão, especialmente porque a forma como o Brasil ataca atualmente está baseada no posicionamento de jogadores para esticar a última linha defensiva. O que se viu até agora comprova que esse funcionamento não está pronto, seja em relação à ideia em si, ou a quem a executa. Tite não é um técnico afeito a mudanças drásticas, de modo que seguirá tentando acertar o que não parece bom. A margem de erro contra o Peru, que derrubou Dunga em 2016, é pequena.



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