Falta cebola



Uma frase de Marcelo Bielsa vem a calhar no debate sobre os dilemas da seleção brasileira. Há um ano, num simpósio de técnicos de futebol realizado no México, ele disse que “dominar os sistemas de jogo deveria ser necessário porque o drible é a ferramenta que soluciona tudo, mas o problema é que ninguém dribla, com exceção de Messi e Neymar”. Não se trata de uma afirmação sobre o ato de driblar, uma habilidade técnica que não revela a qualidade de nenhum jogador ou mesmo sua utilidade para uma equipe. Bielsa está falando sobre a capacidade de romper estruturas num jogo que depende delas.

A organização ofensiva da seleção foi alterada desde a última ocasião em que o time apresentou desempenho coletivo elogiável, durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia. A mudança se deu no próprio Mundial – processo no qual a lesão de Renato Augusto foi ainda mais determinante do que a lesão de Neymar – e prosseguiu depois dele com o flerte de Tite com o que se chama conceitualmente de ataque posicional. É possível, e isto não passa de uma suposição, que objetivo seja confeccionar uma “interpretação brasileira” desse jeito de jogar em que os espaços têm prioridade sobre a percepção dos futebolistas. O resultado, até agora, é um time mecanizado e domesticado.

As equipes que praticam jogo posicional (o Barcelona dos anos de Guardiola é sua expressão máxima, e o Manchester City, não por coincidência, é o exemplo atual mais evidente) partem da própria rigidez para desorganizar o adversário, acionando jogadores em determinadas regiões do gramado com vantagens sobre os rivais. O City, que não tem Messi ou Iniesta, dá liberdades para De Bruyne e ativa os atacantes de lado para solucionar os problemas apresentados por linhas defensivas extremamente recuadas e próximas. A circulação da bola, o passe infiltrado e as jogadas de um contra um são as ferramentas necessárias para esse trabalho. É neste contexto que Bielsa menciona Messi e Neymar.

A seleção tem um deles, mas não está disponível. E não é uma questão sobre Tite estar correto ou equivocado na escolha do sistema que tenta aplicar, pois esse é o papel de técnicos. A pergunta é se os jogadores escalados são os adequados ao modelo, e se as orientações que recebem em treinamento utilizam o melhor de suas características. Desequilíbrio pelos lados nas proximidades do gol, ou vitórias em duelos individuais, sejam onde forem, não dependem da aptidão de driblar, mas do ímpeto e da sabedoria para que uma ideia prevaleça. Quem representa essas virtudes é Everton, que não pode mais ficar no banco.



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