Sem ele



Em fevereiro, quando o Paris Saint-Germain visitou Old Trafford pela Liga dos Campeões, a ausência de Neymar sugeria uma perspectiva sombria para o conjunto francês. O Manchester United parecia revitalizado pela saída de José Mourinho, e a atmosfera das grandes noites europeias de futebol – algo estranho à realidade do clube parisiense, independentemente do orçamento e dos projetos de grandeza originados no Catar – apontava para mais um exame rigoroso para a equipe dirigida por Thomas Tuchel. Quando a história do encontro foi contada, o Paris tinha vencido por 2 x 0 com uma atuação dotada de todos os atributos necessários para que se afirmasse, finalmente, que a reunião de tantos jogadores renomados havia produzido um time no qual se podia confiar. O futuro mostraria que era uma afirmação precipitada, mas essa é outra conversa.

Naquela noite, Tuchel determinou que seu time se defendesse com duas linhas de quatro jogadores e vigilância ostensiva de Marquinhos sobre Pogba. Com posse, os dois laterais avançavam, Draxler e Verrati cuidavam da bola e Di Maria e Mbappé ofereciam perigo constante. O PSG teve a bola por 54% do tempo, com doze finalizações no total e dois gols num intervalo de sete minutos na segunda parte. Tanto em desenho como em postura, a apresentação do time francês em Manchester foi uma surpresa amplamente creditada à criatividade de Tuchel e à excelência dos futebolistas ao aplicarem um plano formulado para suavizar a falta de Neymar e Cavani, ambos machucados. Ao final do jogo de ida das oitavas de final, o resultado servia como uma declaração de intenções do Paris na Champions. A ponto de se questionar se seria possível repetir uma exibição de tal nível – especialmente em termos de organização e eficiência defensiva – com Neymar disponível. (ele também não jogaria na volta, três semanas mais tarde, quando o United venceu por 3 x 1 e se classificou pelos gols como visitante)

Ao lado de Marquinhos, estavam em campo Thiago Silva e Daniel Alves na vitória sobre o Manchester United. Os três fazem parte do grupo da seleção brasileira que disputará a Copa América. Evidentemente não se trata de relacionar situações no plano tático, uma vez que o Brasil de Tite se distancia do PSG de Tuchel em tantos aspectos (por exemplo: em Old Trafford, o Paris passou de quatro a três defensores quando em posse, algo que Tite considera uma dificuldade desnecessária nas equipes que comanda), mas a necessidade de construir uma seleção sem Neymar precisa se materializar em uma semana e, nesse tipo de situação, todas as informações que possam contribuir são valiosas. A perda do brilho individual, do desequilíbrio decisivo, pode ser compensada por um sentido de coesão coletiva. Para além dos nomes e do posicionamento dos jogadores em campo, esta foi uma das virtudes do Paris naquela oportunidade.

O tempo exíguo dificulta a preparação de uma nova estrutura, mas permite a aparição de soluções onde pouco se espera. Não são raros os casos de equipes que se acertaram em competições curtas como a Copa América, como resultado de experimentações que se impuseram. A lesão no pé que tirou Neymar dos jogos contra o United aconteceu no final de janeiro, o que deu a Tuchel algo como duas semanas para trabalhar o time do encontro de ida. Tite precisará fazer o máximo com metade desse período, que inclui o amistoso contra Honduras, amanhã. A influência de Neymar como futebolista não se discute, mas a última vez que o Brasil foi um time com ele se deu durante as Eliminatórias para a Copa da Rússia. A hora de sê-lo, sem Neymar, chegou.



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