Soletrando



Em tempos de ciclos de notícias cada vez mais curtos, a era da imbecilidade é prodigiosa em episódios cuja repercussão se inicia por versões de “mas não é possível…”, desde que a contagem neuronal permita, é claro. Voltemos ao que houve na quarta-feira, pois, apenas pela necessidade de registrar mais uma barbaridade cometida por alguém autorizado a falar publicamente em nome de um clube de futebol, fonte de constrangimento que parece inesgotável. Não deve ser coincidência que o termo sugira, por sonoridade, o esgoto. É de lá que emana certa maneira de ver o mundo, as pessoas, a vida e, lógico, o futebol. E quando chega a hora de exercer a comunicação de uma instituição que faz parte da vida de milhões, é impossível disfarçar a miséria do intelecto. O resultado é uma bomba de esterco de efeitos radioativos.

Sim, é da preciosidade proferida pelo senhor Cacau Cotta do que se trata. Para quem perdeu o momento sublime: o muro da Gávea foi vandalizado com alusões à “Copa Mickey”, e o vice-presidente de relações externas do Flamengo minimizou o protesto afirmando que não era obra da torcida, porque o nome do personagem criado por Walt Disney há noventa anos havia sido grafado corretamente. Para dupla checagem: um dirigente do clube mais popular do Brasil entende que a torcida do Flamengo, de modo geral, não é capaz de soletrar m-i-c-k-e-y. E disso se sabe não apenas porque Cotta pensa dessa forma, mas porque não se incomodou em declarar o raciocínio durante uma entrevista à TV Bandeirantes. Concluir se o responsável pelo relacionamento de um clube deve ou não deve qualificar sua base de torcedores como analfabetos é um debate inacreditável, mas aparentemente é o que se dá. A semana chegou ao sábado e tudo permanece como se nada tivesse acontecido.

Com claro exagero otimista, há um aspecto nesse armagedom retórico que se pode enxergar como positivo: a figura em questão não será mais capaz de enganar ninguém. Digamos que a cota – perdão – terminou. Na eventualidade de haver novas aparições públicas do referido dirigente, a coletividade rubro-negra saberá exatamente quem está falando. Será uma simples questão de boa memória: “Esse aí não é aquele que disse que…”, e lá se vão a condição de comunicar, a credibilidade necessária para tanto, o dever de conectar o Flamengo com quem é Flamengo, a missão de zelar por uma imagem não apenas respeitável, mas admirável como entidade esportiva, o objetivo de levar ao torcedor o sentimento de representação ou, ainda melhor, de pertencimento. Mas a incapacidade é de tal magnitude que nenhuma dessas tarefas tem qualquer chance diante da simples revelação do que uma pessoa processa dentro de si, o que, no caso presente, nada mais é do que a ignorância bruta.

O que é grave aqui é que, por evidente, a pérola sobre a torcida não é um deslize de um dirigente que se viu numa posição muito acima de suas habilidades, mas um reflexo do tipo de conversa que se tem internamente, quando pouca gente está ouvindo. Neste nível de argumentação, perder a noção do que pode chegar ao público é um embate com final conhecido. Cotta pode ser o nome e o rosto associados ao episódio, mas obviamente não é o único que merece o aplauso pela conversão de um evento rotineiro (muro pichado) em um desastre de imagem concebido dentro de casa. A forma como o Flamengo se comunica na atual gestão, da tragédia no Ninho do Urubu à desqualificação de seu maior patrimônio, trafega entre o amadorismo irrecuperável e a pose corporativa, dois equívocos que exibem total desconhecimento de como um clube deve se apresentar ao mundo. Não fosse a nota oficial mais ridícula da história do futebol, não haveria ironia com a “Copa Mickey” no muro da Gávea, e a torcida do Flamengo não teria sido ofendida por quem deveria tratá-la com máximo respeito.



MaisRecentes

Enquanto isso, na NFL…



Continue Lendo

Visita Técnica



Continue Lendo

Não é patinação



Continue Lendo