Futebol generoso



“No curto período de tempo em que você e sua equipe têm dirigido o Leeds United, nós assistimos a uma inspiradora reviravolta na qualidade do futebol em Elland Road. Tem sido incrivelmente agradável ver a união no clube e o progresso dentro e fora do campo. Melhoras no centro de treinamento, uma clara visão de futebol e uma equipe técnica verdadeiramente apaixonada conseguiram devolver ao clube sua identidade após anos de má administração”.

“Leeds é uma cidade unida novamente, o futebol retornou. Juntos somos leais, determinados, orgulhosos. A longa história do nosso clube está bem estabelecida, mas como o sucesso consagrado pelo tempo pode desvanecer, ainda há muito a escrever e sentimos que isso é só o começo. Essa temporada renovou nossa esperança no futuro e no início de um novo capítulo de nosso patrimônio. Queremos que você continue sendo uma peça chave nisso”.

“Você tem nosso respeito, nossa admiração e nosso suporte inabalável. Nós acreditamos em sua filosofia e agradecemos por seus esforços. Seu futebol nos faz sonhar de novo e estamos confiantes que você seguirá nos guiando pela jornada em nossa temporada centenária”.

Trechos da carta escrita por um grupo de torcedores do Leeds United para Marcelo Bielsa, após o encerramento da temporada em que o treinador argentino não conseguiu levar o clube de volta à Premier League. O desfecho do campeonato foi extremamente doloroso para o Leeds, derrotado pelo Derby County no confronto que valia a classificação para o jogo que determina o acesso. O time dirigido por Bielsa foi o primeiro na história dos playoffs da segunda divisão inglesa a ser eliminado após vencer o jogo de ida como visitante, o que evidentemente aumenta o sentimento de frustração entre os torcedores, mas não impediu manifestações de apoio e gratidão como as reproduzidas acima. No encerramento da mensagem, o Leeds United Supporters Trust pede que a diretoria do clube dê a Bielsa as condições que ele deseja para que o time evolua.

A figura de Bielsa divide o futebol em áreas que estão muito acima do debate entre desempenho e resultado (mesmo porque o jogo não aceita essa dinâmica como um conflito de ideias, mas essa é uma conversa para outro dia). Marcelo é uma espécie de Yoda dos treinadores, um guru do futebol puro, virtuoso, honrado. Também pode ser um perdedor adorável ou apenas um personagem excêntrico, cultuado pelos ingênuos a quem José Mourinho apelidou de “poetas”. Os diversos rótulos aplicados à sua forma de viver o futebol lhe conferem admiração e desprezo, sentimentos que muito provavelmente refletem a maneira como cada um sente o jogo dentro de si, ou seja, muito mais reveladores a respeito de quem olha.

E como a profissão de técnico de futebol é uma atividade que se supõe de domínio público (na verdade, enxerga-se todo o universo do jogo dessa forma, um evidente equívoco que, também, é um tema para outro momento), prefere-se ignorar as opiniões daqueles que o consideram uma influência determinante em suas carreiras. Pep Guardiola e Maurício Pochettino, apenas para citar dois exemplos. Pior, tende-se a classificar um testemunho como o dos torcedores do Leeds como algo desimportante, circunstancial, como se esse tipo de demonstração não fosse exatamente o que o futebol deve ser. O que é este jogo, se não um motivo para pessoas se reunirem ao redor de um emblema, de modo a que ele se torne uma parte significativa de suas vidas? E quanto vale – especialmente em relação a tantos exemplos no sentido contrário, em todos os lugares – a expressão de agradecimento de quem se sente bem representado, mesmo que o objetivo final tenha ficado a poucos metros?

Ao dar explicações sobre a derrota para o Derby County, Bielsa disse que “quando equipes generosas fracassam ou decepcionam, [as críticas] pedem mesquinhez”. Não é o que se compreende da carta dos torcedores do Leeds, generosa como o futebol do qual fazem parte.



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