Manadas



No dia seguinte à última rodada da Premier League, o New York Times publicou uma reportagem informando que o Manchester City pode ser punido pela Uefa com exclusão da Liga dos Campeões. O bicampeão inglês é acusado de ludibriar os controles financeiros da entidade que supervisiona o futebol na Europa e, ainda que as investigações não estejam concluídas, o tema é indiscutivelmente importante por motivos óbvios. O City não quis falar com o jornal, mas publicou uma nota afirmando-se inocente e mencionando preocupação com o que considera uma campanha de prejuízo de sua imagem.

Em questão de minutos, simpatizantes do time azul de Manchester mobilizaram as redes antissociais com diversas reações à reportagem e à possibilidade de punição. Como é frequente, a disseminação de “teses” sobre os motivos inconfessáveis que estariam escondidos sob a prática de informar ganhou vida. A mais criativa delas, talvez, construía uma teia de interesses sob a qual o Times, que seria acionista do grupo empresarial que controla o Liverpool, estaria apenas agindo para danificar a reputação e os objetivos de um clube rival. Ocorre que nada disso é verdade, embora a verdade não importe a quem evidentemente não deseja ser informado, apenas quer ler/ouvir o que lhe provoca uma sensação de conforto.

O “comportamento de manada”, tão comum nas redes, não precisa de muito esforço para ganhar tração e ao menos gerar baderna suficiente para equilibrar o placar da opinião pública, mesmo que por intermédio de ficção. O problema se agrava quando o motor que impulsiona falsos debates são instituições que deveriam estar empenhadas na vida real. Nesse âmbito, os clubes brasileiros parecem recorrer a um manual de comunicação que só sabe responder a notícias desagradáveis com a carta da “tentativa de desestabilização”, de modo a estabelecer um conflito entre nós (clube e torcida) e eles (o mundo).

O Flamengo – apenas para citar um exemplo, entre tantos, no qual praticamente todos os clubes do país se enxergariam, ok trolls? – tem sido um expoente desse antigo método, com a publicação de notas oficiais em que a desconexão da realidade é flagrante a ponto de sugerir que a autoria dispensa a qualificação para uma função tão relevante. Quando não se peca por argumentação sofrível e/ou claramente disposta a confundir, o equívoco se dá pela ideia de que um clube de futebol deve se comunicar em tom corporativo. Difícil. Mais ainda quando muitos exemplos do futebol de primeiro mundo são ruins.



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