Irreal



“Eu não sei se você é fã de futebol, mas o Liverpool ontem conseguiu uma das maiores vitórias na história [do futebol]. Depois do jogo, o técnico deles, Jurgen Klopp, disse que (…) ‘nossos garotos são uns gigantes do c…’. Foi o que ele disse. E eu sei como ele se sente. Então eu peço desculpas à minha mãe, que provavelmente está assistindo: nossos caras são uns gigantes do c…, porque foi uma vitória inacreditável nesta noite”.

Steve Kerr citou Jurgen Klopp em sua conversa com repórteres após seu time, o Golden State Warriors, vencer o Houston Rockets nos playoffs da NBA, na quarta-feira passada. Pense nisso. Uma coisa é o fato de o futebol ser o esporte mais popular do planeta Terra, uma novidade para ninguém. Outra coisa, inteiramente diferente, é um técnico de basquete, americano, alguém que passou a vida na “liga do espetáculo” mencionar um raciocínio com o qual se identifica, e esse pedaço de declaração vir do futebol. Sim, os jogos da Liga dos Campeões da Uefa geram bastante interesse nos Estados Unidos, e não apenas ao contingente latino da população do país. Mas se Klopp citasse uma frase de Kerr sobre qualquer assunto, seria mais um treinador de outro esporte demonstrando que acompanha a NBA. Algo frequente. O inverso é mais uma prova dos dias insanos que o futebol proporcionou nesta semana.

Na Inglaterra, especialmente, homens crescidos começaram a chorar em público na segunda-feira, quando o belga Vincent Kompany acertou um chute extraordinário, de fora da área, para deixar o Manchester City a uma vitória do bicampeonato da Premier League. Vinte e quatro horas depois, o Liverpool deixou Steve Kerr colado à tela da televisão pela forma como alcançou a final da Champions. E na quarta-feira, outra vantagem de três gols foi apagada na grande noite da vida de Lucas Moura, quando o Tottenham eliminou o jovem e formidável time do Ajax do mesmo torneio. Os apaixonados por futebol que vivem no Brasil ainda poderão dizer que essa onda de viradas começou em Porto Alegre na noite de domingo, com Fluminense indo de 0 x 3 para 5 x 4 na Arena do Grêmio. O jogo tem renovado sua inesgotável capacidade de surpreender, reescrevendo roteiros em pleno andamento, talvez apenas para relembrar que não existe atividade humana dotada de poder semelhante.

A temporada na Liga dos Campeões atingiu níveis insuportáveis de tensão, e a final ainda nem foi disputada. Se a fase de mata-matas do torneio europeu exibiu algo, foi que não existem vantagens seguras ou situações administráveis enquanto houver tempo no relógio, roubando temporariamente do basquete a ideia de que “o jogo não acaba nem quando termina”. No processo, fica a lição de que a entrega de corpo e alma a um objetivo, por mais inverossímil que pareça, pode produzir eventos absolutamente reais e inesquecíveis, noites que as próximas gerações não precisarão atribuir a lendas contadas e aumentadas ao longo dos tempos, pois o YouTube provará como tudo aconteceu.

Imagine os melhores roteiristas reunidos em uma sala, orientados a contribuir com o auge de seu talento para criar uma obra fantástica, com orçamento ilimitado e dirigida pelas mentes mais brilhantes do cinema. O resultado não chegará perto do que o futebol é capaz de fazer com a vida de verdade e com algumas das sensações mais arrebatadoras que existem, mesmo que o próprio jogo seja o objeto da história contada com impressionante nível de realismo. Porque a raridade do que é real não pode ser recriada com o componente da emoção em desenvolvimento, das reviravoltas que alteram frequências cardíacas e do caminho rumo ao desconhecido, em que a bola carrega o mundo de cada um com o que existe de mais valioso e definitivo, até o dia seguinte.



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