Engenheiro



Há uma tese circulando por programas de debate, formulada por quem supõe ter um conhecimento do elenco do Santos superior ao do próprio treinador do time, de que faltam jogadores de qualidade para Jorge Sampaoli aplicar o futebol que prefere. É uma simulação de sabedoria ainda mais ousada do que as análises rasteiras concentradas apenas no resultado de jogos, mas, infelizmente, o tipo de coisa que viaja bem até a arquibancada e dali se propaga como se fosse verdade. Imagine um técnico desse nível, em busca de recuperação de prestígio, cometendo um de dois equívocos – ou talvez ambos – da mais alta gravidade: 1) falhando ao diagnosticar o potencial individual dos jogadores à disposição; ou 2) insistindo em propor um jogo que supera a capacidade técnica de seu time. Seria um incompetente ou um irresponsável, além do maior prejudicado pelo desfecho inevitável que lhe tomaria o emprego e uma chance de retomar a carreira.

Uma das maneiras mais seguras de detectar o trabalho de um técnico de futebol, mesmo sem a possibilidade de vê-lo atuando em treinamentos, é verificar se seu time produz mais do que a soma de suas peças. Quando isso acontece, é possível notar que, além das características individuais em ação, existe uma orientação coletiva que foi apresentada aos jogadores e por eles interpretada – obviamente sem excluir os méritos evidentes de quem entra em campo – em ensaios e em partidas. Essa orientação não é, como nada no futebol de hoje, fruto do acaso. Precisa ser praticada em preparação com métodos eficientes e validada em competição, ainda que não seja garantia de sucesso. A versão 2019 do Santos já ofereceu diversas jornadas em que o time, como produto de uma concepção de futebol, revelou-se um organismo diferente do sugerido pelos nomes envolvidos, indícios de um treinador operando de forma autoral.

Mais correto seria dizer as versões, no plural. Porque o Santos dirigido por Sampaoli já foi ao menos três equipes diferentes, em desenho, no que se viu da temporada até o momento. Para quem aprecia o que Marcelo Bielsa chama de “módulos”: um 4-3-3 mais formal, em que a posição de centroavante (mais sobre isso adiante) ainda impede o melhor desenvolvimento; um 2-3-5 que remonta aos primórdios do jogo, com laterais posicionados por dentro e pressão massiva no oponente; e um 3-5-2 que não deseja ser o dono da posse, mas controla a faixa central para roubar e ser vertiginoso. Tão importante quanto essa variação é o fato dos três sistemas ganharem vida no gramado com diferentes escalações, o que tem possibilitado ao técnico dosar o desgaste de seus jogadores mais importantes sem que essa necessidade – sim, é uma necessidade para manter intensidade, não um fetiche – leve a problemas de desempenho. Um sinal de que, além de qualidade, o elenco do Santos tem quantidade para competir.

Outro exame do ofício de um técnico é o crescimento de jogadores sob seu comando. É fácil identificar Diego Pituca e Carlos Sánchez como exemplos nesse aspecto, embora Jean Mota seja claramente o futebolista que mais evoluiu neste ano. Derlis González e Felipe Aguilar também merecem menção, sempre em um contexto de adaptação ao jogo prescrito por Sampaoli. O que falta para satisfazê-lo – opinião do próprio – em termos de condições para brigar entre os melhores no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil é um camisa 9, de preferência Ricardo Oliveira. Sampaoli tem repetido o nome do ex-santista a cada vez que alguém lhe dá bom dia nas últimas semanas, mais um traço de uma personalidade obsessiva no sentido de comprovar aquilo em que acredita, em meio a vozes desconfiadas que se imaginam mais próximas da obra do que o engenheiro.



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