Preguiça



“Para mim o mais importante é a liga [espanhola]. Porque o dia a dia é o mais complicado. Na Champions você tem, se for do começo ao fim, doze, treze jogos. Na liga, não. São trinta e oito jornadas e todos os dias”.

Pense de novo, se seu primeiro impulso foi atribuir o raciocínio acima a um flagrante desdém pela Liga dos Campeões da Uefa. O responsável por ele é Zinedine Zidane, em entrevista antes do jogo do Real Madrid contra o Getafe. E tente outra vez, se por acaso sua segunda conclusão foi algo como “claro, depois de três Champions conquistadas…”. Uma rápida pesquisa sobre aparições públicas do treinador francês levará à comemoração do campeonato espanhol de 2016-2017, conquistado pelo Madrid de Zidane após hiato de cinco temporadas. Ele já era campeão europeu, e assim descreveu a sensação do título: “Como técnico é meu maior êxito: ganhar esta liga é diferente. Para mim, a liga espanhola é a mais complicada”.

A noção de quem trabalha no futebol sobre o que é difícil de alcançar, e por isso gera maior orgulho, com frequência difere dos desejos de torcedores mais ou menos distanciados do jogo. Na Europa, onde o ambiente é mais organizado e o calendário mais racional, a valorização ao que Zidane chama de “dia a dia” é um reflexo da rotina que exige alto nível semana após semana, concentração do início ao fim na perseguição a um objetivo que só se materializa para o melhor, quer dizer, para quem está disposto a pagar todas as taxas para ser o melhor. É o que Pep Guardiola repete há anos quando o assunto é uma atrocidade como “a obrigação de ganhar a Champions”, um devaneio decorrente da falta de interesse em descobrir como o jogo de futebol funciona. Zidane, que deve saber alguma coisa sobre a Liga dos Campeões, pensa da mesma maneira.

O fetiche brasileiro pela Copa Libertadores da América gera distorção semelhante. A Champions desta região do mundo se converte em obsessão dos clubes mais estruturados e desloca o Campeonato Brasileiro para segundo – ou até terceiro – plano. Na largada da edição de 2019 da principal competição de futebol do país, bastará ver como serão as escalações dos times envolvidos no torneio sul-americano. A culpa não é apenas das comissões técnicas, cuja obrigação é escolher quem joga e quem descansa. O calendário que ignora o que seja uma pré-temporada e consome um trimestre com jogos dos estaduais já é, em si mesmo, uma ameaça ao que deveria ser protegido. Até a Copa do Brasil, pelo prêmio gordo ao campeão e por conduzir à Libertadores em menos partidas, é mais atraente num contexto contraditório que desvaloriza a ambição de ser o melhor time do país no campo. Todos os aspectos considerados, as ideias de Zidane não cabem aqui.

Alguém dirá que tem de ser assim mesmo, completando o exercício de conformismo que prefere não olhar para o nível do jogo praticado nos gramados brasileiros e para a situação econômica dos clubes, produtos das incoerências de sempre. Só o Campeonato Brasileiro garante dezenove rodadas como mandante, dezenove oportunidades de ocupar estádios e gerar receitas que potencialmente superam qualquer prêmio por conquista. Sem falar no formato de disputa, que leva à coroação do mais competente ao diluir a influência da falta de sorte e dos erros de arbitragem, especialmente agora, com a utilização do sistema de árbitro de vídeo. “São trinta e oito jornadas e todos os dias”, disse Zidane. No Brasil, também. Mas no lugar de cobiça pelo que tem valor, o que se sente é preguiça por causa de algo que se coloca no caminho de planos mais sedutores.



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