Um presente



Em tempos de exageros cometidos com frequência assustadora, termos como “épico” e “histórico” são associados a eventos que não os merecem. Mas a classificação do Ajax para as semifinais da Liga dos Campeões é uma dessas ocasiões que precisam ser descritas de forma a reservá-las um lugar especial. É perfeitamente razoável dizer que o jovem time holandês, constituído por futuras estrelas e inspirado pelo espírito que o diferencia, pratica o futebol mais atraente do principal torneio de clubes do mundo. A vitória de virada sobre a Juventus, em Turim, foi uma demonstração autêntica do tipo de jogo que o Ajax representa, numa noite em que o resultado deveria ter sido ainda mais favorável do que 2 x 1.

Este Ajax é a versão mais atualizada do que se chama de “futebol cruyffiano”, ou seja, alicerçado nas ideias da figura mais influente no jogo nas últimas décadas e nas adaptações necessárias para acomodar, nesta visão, futebolistas que as interpretem de acordo com o que aprendem e sentem. Haverá quem diga que não se trata de um modelo clássico do jogo de posição que Cruyff personifica, e é absoluta verdade. Por exemplo: os atacantes de lado não ficam restritos a seus setores próximos à linha lateral, alargando o gramado e aguardando a bola; o meio-campista mais determinante tem autorização para dirigir o time navegando por onde achar conveniente; no aspecto estético, há pouca preocupação com simetria. A movimentação dos jogadores parece desorganizada, embora seja o contrário.

No entanto, independentemente de formatos, o Ajax que eliminou o Real Madrid e a Juventus da Liga dos Campeões guarda íntimos valores do futebol proposto nos momentos mais gloriosos do clube: a posse, o passe, o refinamento técnico, o sentido coletivo, o caráter ofensivo inegociável e, sobretudo, a coragem. Ausência de medo talvez seja uma ideia um tanto quanto subjetiva quando aplicada ao jogo de futebol. Pode sugerir valentia, no sentido de força, vigor, o que não é necessariamente o caso. A coragem que o Ajax exibe como um selo de identidade é algo que se aproxima da insolência e da arrogância, sempre no significado positivo. É o que permite a jogadores na faixa dos vinte e poucos anos – ou nem isso, como no caso do zagueiro Matthis de Ligt, 19 – subir ao gramado de estádios como o Santiago Bernabéu e submeter adversários de mais nome e maior orçamento.

O Ajax é um presente que, de vez em quando, o futebol encomenda para si mesmo.



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